Uma crítica ao Teatro Estudantil, ou seja: a nós mesmos!

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Antes de qualquer coisa, um vídeo. Quer uma introdução mais “Eu mesmo” do que esta?

Disclaimer: Este post é longo. É para os dispostos (você vai entender no fim do texto) e representa uma visão pessoal acerca da cena teatral estudantil em que estou inserido já há alguns anos. Desta forma, não se trata, pelo menos ainda, de uma postagem que represente a visão e a opinião do Grupo Brinquedo Torto, grupo que eu dirijo e cujas opiniões são formadas da escuta e do diálogo entre seus integrantes e equipe. 

Imaginem uma máquina maravilhosa, de tecnologia de ponta, capaz de realizar grandes feitos. Algo como uma Impressora 3D, com inteligência artificial e movida a energia solar. Ela é capaz de produzir peças para máquinas, aprender novos padrões e, até mesmo, construir uma impressora mais avançada que ela mesma; tudo isso com o uso de energia limpa, vinda do sol, ou seja: não aumenta a conta de luz em um mísero centavo. Incrível, não é mesmo? Agora imagine só o seguinte: esta máquina maravilhosa está sendo usada apenas para tirar cópias em preto e branco; mesmo com tanto potencial, ela continua sendo usada como uma mera máquina de xerox. Que tipo de sentimentos te despertam imaginar um cenário como este?

Pois venho sentindo isso nos últimos tempos. Temos em nossas mãos, uma ferramenta incrível: o Teatro; feito com gente nova (nossa tecnologia de ponta/inteligência artificial) e movida a energia solar: criança, adolescente e jovem tem um pique de dar inveja a qualquer um. Quantas vezes não nos perguntamos onde está o botão que os desliga? Quantas vezes procuramos formas de canalizar corretamente tanta energia e tanta vontade de gritar milhões de coisas para o mundo? O que eu me pergunto é: o que estamos fazendo com isso?

Vejo ao longo dos anos, e me incluo nisso, grupos com um potencial infinito, com dificuldades para se gerir, para se reconhecer e serem reconhecidos enquanto artistas, meninos que escolhem a mesma carreira que eu e que depois enfrentam grandes dificuldades para se sustentar. Mas todo ano, algo não falha: Sempre temos uma peça. Um espetáculo, na maioria das vezes, fruto de muito trabalho e chegamos em resultados bastante interessantes. Mas no final, do que serve? Não seria cada espetáculo mais um xerox criado pela Impressora 3D, que poderia fazer muito mais?

Todos os anos, mergulhamos de cabeça no nosso trabalho, pesquisamos, encontramos um assunto a ser dito, a dramaturgia (improvisada ou não) surge, pesquisamos mais um pouco, um pouco mais ainda, mergulhamos fundo, tão fundo que muitas vezes esquecemos de olhar para os lados e para percebermos que não estamos sós. E nós, do Projeto Potência, passamos pelo mesmo processo. A diferença é que a partir de um determinado momento do ano, passamos a dedicar todas as nossas forças para a realização de um encontro de quatro ou cinco dias, que é muito especial, eu também acho, mas cujo funcionamento colaborativo pouco reflete o que vivemos nos outros 365 dias do ano.

Estamos conectados, a comunicação pode ser dar de forma instantânea, mas usamos a rede, e dedicamos muito tempo para isso, apenas a fim propagar nossas ações, divulgar nossos trabalhos, mas não para criarmos juntos, para colaborarmos uns com os processos dos outros, para nos apoiarmos mutuamente. O futuro é em rede, vivemos um momento de transição mundial e no teatro estudantil temos o privilégio de trabalhar a arte e a educação em conjunto, com a possibilidade criando futuros possíveis através de ações que realizamos no agora, mas continuamos montando uma peça e compartilhando com os amigos. O velho paradigma da máquina copiadora.

Podemos dizer que a rotina é cruel e que o tempo é escasso. Isso é verdade. Mas como utilizamos o tempo que temos, reflete nossas prioridades. Dessa forma, percebo, sempre me incluindo neste cenário, que nossas prioridades ainda não estão alinhadas com a ideia de criarmos um modelo inovador de funcionamento do Teatro Estudantil, que nos faça sermos respeitados pelos profissionais do Teatro e da Educação. Ainda não nos preocupamos em repensar nosso modelo de trabalho para que nossos alunos que escolham fazer teatro, não enfrentem tanto preconceito por ser um trabalho “que não dá futuro” e possam viver dignamente da profissão que escolheram, muitos deles, curiosamente, querendo continuar no Teatro Estudantil e não em qualquer Teatro.

Volto a dizer que me incluo neste cenário. Mas desde ano passado venho tentando promover ações nessa contramão, ao mesmo tempo que sou convidado a colaborar nas mais diversas frentes do Teatro e da Educação. E como a forma que utilizamos o tempo reflete nossas prioridades, busco sempre imprimir meus esforços numa cultura de rede e de colaboração no Teatro Estudantil, mais especificamente no Projeto Potência e em seu coletivo. Creio que já perdi a conta de quantas vezes repeti a palavra COLABORAÇÃO durante o ano passado e, principalmente durante o Potência 2016. Nos últimos dias, tenho pensado em outra palavra, que está presente neste vídeo: INTERDEPENDÊNCIA.

Obviamente, a mudança de um modelo para um sistema nem sempre é rápida e muitas vezes algo novo parece até um pouco loucura no começo. E confesso também que muitas vezes me sinto “o louco da colaboração”. Venho tentando com todas as forças ser alguém que fomenta essas reflexões e promove ações no sentido de tentar dar certa liga ao Projeto e ao Teatro Estudantil, mas sinto que na maioria das vezes, meus esforços dão pouco ou nenhum resultado. Talvez seja uma inabilidade da minha parte de gerar este movimento ou talvez as pessoas simplesmente não queiram. O fato é que, desde o começo do ano, decidi investir pesado na cultura de colaboração criando o Colaboratório de Criação Dramatúrgica, Webinários, abrindo a possibilidade para que membros de outros grupos participem de nossa criação, enviem vídeos que farão parte de nosso espetáculo, mas vejo ainda resultados muito abaixo do esperado. E sinto que o ano seguirá da mesma forma que 2016, cada grupo montando seu trabalho até que num determinado momento, existirá a grande explosão do Potência, que vai se autoconsumir e  se encerrar, tendo que ser novamente acesa uma chama, que gerará a explosão. Eu acho que seria tão mais legal se a chama e o fogo se retroalimentassem…

O que eu vejo que é possível? Vejo o Projeto Potência com a possibilidade de criar uma massa crítica que não só se estabeleça como um coletivo forte, como fomente a criação de outros coletivos estudantis (Nosso Manifesto fala sobre isso). vejo a chance de o Teatro Estudantil ser conhecido e respeitado nacionalmente, havendo a possibilidade de financiamento dos trabalhos, o que não acontece hoje em dia, pelo setor público por meio de editais; privado através de patrocínios, e apoio do terceiro setor, que eu acredito ter muito a ver com nosso movimento. Vejo uma nova geração de profissionais do Teatro Estudantil surgindo, muito mais preparados que nós, diretores dos tempos atuais, produzindo trabalhos mais tecnicamente apurados, com a mesma magia, promovendo inovações estéticas e, quem sabe, até ditando tendências. Vejo também transformações para além do Teatro. Com profissionais de diversas áreas com experiência e vivência na arte, impactando empresas e instituições de dentro para fora, oferecendo um olhar mais sensível, humanizado e apaixonante ao trabalho que realizam.

E por que vejo isso? Porque sou um sonhador? Talvez. Mas todas as pessoas com que eu converso sobre o que estamos fazendo hoje em dia, ficam encantadas com a coisas que já fazemos, ficam com os olhos brilhando e alguns sentem até uma pitada de inveja. E quando converso com meus amigos diretores dos outros grupos, sinto o mesmo e sinto também muita paixão. O mesmo ocorre quando converso com integrantes dos outros grupos. Todos querem o mundo e o cenário que descrevi acima, querem essa nossa utopia. Todos nós queremos. Mas o fato é que talvez não estejamos tão dispostos assim. Estar disposto é mais do que querer. É saber que, para chegarmos em algum lugar diferente daquele em que estamos, precisamos sair da zona de conforto, nos dispor a aprender aquilo que não sabemos, a experimentar o que não conhecemos, abrindo mão de todo o poder que possuímos para partilharmos decisões coletivamente e cocriarmos esta realidade tão desejada. Isso sim, não me parece uma tarefa tão fácil, mas creio que só ela pode nos levar a algum lugar.

Chego às últimas linhas deste post gerando certa polêmica. O que nós, enquanto coletivo queremos? O que nós, enquanto coletivo desejamos para o Teatro Estudantil? Mas, sobretudo estamos realmente dispostos?

Há ações acontecendo no Brasil e no mundo que já mostram alguns caminhos. Vocês sabiam, por exemplo que já existe uma Rede Brasileira de Teatro de Rua? Muitos grupos de São Paulo estão se organizando em coletivos e creio que em Minas há o mesmo movimento e para mim, essas ações, representam a vanguarda não só da arte, mas da estrutura de uma nova sociedade. Queremos de fato fazer parte dessa vanguarda?

Talvez a resposta seja não. Não queremos. Talvez queiramos continuar na condição e no modus operandi que já estamos. Talvez montar uma peça, seja mais importante para nós do que cocriarmos um futuro para nossa arte. Eu, particularmente, acho ambas as coisas igualmente importantes, mas entendo o espetáculo como um meio e não como um fim. Mas gostaria sinceramente que cada integrante deste coletivo pensasse com sinceridade o que quer e a que está disposto. Se for apenas o “fazer teatro para montar espetáculos”, tudo bem, entendo e respeito, embora continue acreditando que somos Impressoras 3D, continuaremos fazendo apenas fotocópias….

Beijo na testa!

VarleiXavier About VarleiXavier
Professor Xavier é meu herói preferido. Sempre me senti meio mutante, perdido e deslocado, mas o teatro (essa irmandade) me salvou. Desde então, com meus poderes mentais, recruto seres especiais para cumprir minha missão: Levar encantamento ao mundo. Professor, Ator, Dramaturgo, Diretor, Contador de Histórias e Sonhador Potente.

  • Miguel Tescaro Fagundes

    Realmente: até onde queremos ir?
    Vejo uma outra analogia possível. Pensando que somos como um avião com combustível suficiente para ir de São Paulo para o Tóquio (Japão), porque temos usado nosso avião para ir de São Paulo para o Rio de Janeiro?

    Esse ano comecei a entender de verdade a questão da colaboração, e tenho amarrado fios em todos os grupos do nosso coletivo aqui em São Paulo. Tento usar todas as ferramentas que temos a disposição, mas ainda assim não é o suficiente.
    Precisamos aprender que em uma situação de coletivo, temos que codepender dos outros, a fazer junto.

  • Robson Mendes

    Realmente vejo seu esforço de fazer com que a colaboração acontece de forma continuada e não apenas em alguns dias. Acredito que é importante mesmo que ela aconteça sempre. Estou refletindo sobre uma forma de aproveitar mais o potencial dessa “impressora 3D” e também de que maneira posso contribuir com esse processo.
    Obrigado pelo post e pelas provocações!

    Grande abraço!