Um Teatro que não dói, não é um bom Teatro.

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Eu não sei o que faz uma peça, ser uma peça ruim. Mas eu reconheço uma peça ruim quando eu a vejo.” – Uma vez eu disse isso numa reunião cheia de “artistas” e apesar de ser massacrado pelas opiniões contrárias e hipócritas, percebi que era uma verdade. Eu não sabia o que tornava um espetáculo – mesmo que ele tivesse sido ensaiado seriamente, com atores realmente esforçados, com elementos plásticos bem produzidos – um espetáculo ruim.

Parece pecado falarmos de Qualidade, Importância, e até mesmo Utilidade de nossa arte. Mas se nós não falarmos sobre isso, te garanto que ninguém irá falar. A pior coisa do mundo é um teatro ruim. Além de ser algo triste de ver, ele joga contra. Uma pessoa que nunca foi ao teatro, e a primeira peça que assiste na vida é uma coisa ruim… acredite, será a primeira e última experiência daquela pessoa. E assim, não perderemos só um espectador; perderemos vários, pois essa pessoa tem amigos que irão saber muito bem (ou muito mal) aquilo que você fez em cena; e esta pessoa também terá filhos, que não serão educados a apreciar nosso trabalho. Muito pelo contrário, só ouvirão coisas ruins sobre nós e nossa arte.

Já é difícil explicar para nossos pais e amigos o porquê de fazermos teatro. Explicar o porquê de termos feito um teatro ruim então, é algo impossível. É inexplicável!

Sim. Não temos o direito de fazer uma arte duvidosa.

Mas como qualificar nossa obra? Se o teatro, enquanto arte, se baseia em tantos elementos subjetivos, como apontar, de forma objetiva essa suposta “qualidade”? Em outras palavras: O que faz nosso trabalho ser bom?

Nossos espetáculos podem ter diversas origens, diversos princípios, diversos objetivos, e variados fins… Mas somente a sua arte possui uma única coisa exclusiva: você.

Não estou dizendo que se estiver bom para você, quer dizer que está bom para o mundo. Eu realmente NÃO quero dizer isso. Esse pensamento é um dos grandes responsáveis pela baixa qualidade de alguns espetáculos. Quero dizer que você pode utilizar um “termômetro de qualidade” que existe dentro de cada artista: a dor.

O ator deve doar. O Teatro deve doer.

Deve doer na consciência. Doer no afeto. Doer na alma.

Toda vez que temos dúvida, dói. Toda vez que amamos, dói. Toda vez que encontramos uma verdade que queremos negar, dói.

Dói quando vemos aquela série de situações que poderiam ser facilmente evitadas, levando dois apaixonados a se matarem em Romeu e Julieta; dói quando vemos aquela mulher sendo forçada a entregar os seus filhos, um a um para a guerra, em Mãe Coragem; dói a sentença de Antígone que só queria enterrar o irmão. Como dói aquele gesto firme e cheio de significados do ator. Como dói a verdade transparente nos olhos daquela atriz que não precisa dizer nada. Como faz doer aquela música que apareceu naquele justo momento da cena. Como faz doer aquele silêncio imóvel que vai sumindo diante de nossos olhos, enquanto a luz abaixa.

As vezes não sabemos o quê, nem porquê, mas sabemos que dói. E se doeu, significa que algo reverberou em algum lugar dentro de você.

Você pode criar suas cenas pensando em fazer doer no espectador. Talvez, repito: TALVEZ, isso implique na utilidade da sua obra (“Ela é útil? Ela faz doer? Essa dor vai gerar alguma mudança?”). Mas se a sua dúvida for sobre a qualidade de sua obra, se ela é boa ou não, você tem que se perguntar: “Isso dói em mim?”. Se a resposta for sim: Se é um tema que te motiva, se é uma estética que te provoca, se é um processo de criação que te estimula… se algo, no meio do caos coordenado, que é a criação de um espetáculo, dói em você… Então, pelo menos, você está em um bom caminho.
Mesmo que você acredite que não será bom para ninguém o ver, se dói, é um bom Teatro.

Uma peça só é boa se é de verdade”, “Faltou verdade em cena”, “O elenco não fazia de verdade”. Estas e muitas frases parecidas já foram ditas, e não ajudaram ninguém a melhorar o seu trabalho; exatamente porque é algo realmente difícil de explicar quando uma peça “não chega” no espectador. Uma dica? Faça doer.

É muito fácil fingir que se faz teatro. Vemos isso todo dia, mesmo em nossos próprios ensaios. Ás vezes, até na gente mesmo. Devemos lutar contra isso. Agir no desconforto.

O espectador é um sujeito que saiu de casa; desligou a tv, fechou o jornal, se desconectou da internet, e foi ao teatro na busca de algo que ele não encontra em nenhum desses lugares: uma Verdade. O espectador que sentir e viver uma Verdade que até então ele não sabia que existia. E ele precisa que você ator/atriz vivencie uma Verdade, para que o espectador possa reconhecer a dele.

Os seres humanos se reconhecem na Verdade, e se atraem pela Verdade. E por mais clichê que isso pareça, te garanto: a Verdade dói.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com