“Um bom Teatro permite que você veja você, como você nunca viu.”

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Já percebeu que você é um indivíduo? E que isso significa que seu âmago, seu self, tudo isto que você chama de “eu”, não é algo divisível? Que todas as somas que te fazem parte, não podem ser divididas? Se retirassem, uma a uma, todas as coisas que possui, o que sobraria, aquilo que não pode ser separado do todo, é o que, na verdade, te define. É sua essência, sua potência. Essa é a sua individualidade.

O que é diferente de Identidade. Identidade é a sua postura em relação ao mundo. É como você se coloca diante dos fatos, das condições, das situações, que a vida lhe apresenta. Você pode ser a favor ou contra, fazer parte ou não. É sua postura social, cultural, filosófica, que é formada dentro do contexto social em que você vive, dentro de normas que se segue. É o que lhe dá sensação de pertencimento a algum a nominação política, religiosa, estética…

E existe a Alteridade, que é a afirmação do seu “eu-individual” no confronto com o outro. É a sua percepção de si mesmo, fora de uma situação de conforto. É quando você está diante de uma realidade estranha a sua e se compara. De maneira simples: Você só sabe que é alto, quando se encontra com pessoas mais baixas; assim como percebe seus tons de pele, cabelo e olhos, quando encontra alguém que apresenta uma variedade de cores, texturas, marcas, diferentes da sua. A alteridade assusta, porque se você se comparar com todas as pessoas que aparecerem na sua frente, você vai perceber que não é igual a ninguém, você não é normal, porque o “normal” simplesmente não existe. Você é uma pessoa única e exclusiva. Todos somos.

Quando os espanhóis encontraram os Astecas pela primeira vez, na visão deles só poderiam se tratar de um povo sem alma – por isso podiam ser mortos – , para os Astecas, os espanhóis não poderiam ser humanos – por isso demonstraram respeito, depois, medo – ; quando os portugueses encontraram os japoneses pela primeira vez, pensavam que se tratavam de demônios, pois comiam comida crua, andavam com espadas, e não tinham medo de morrer; para os japoneses, aqueles homens queimados pelo sol e peludos só poderiam ser ignorantes, com um cérebro subdesenvolvido, pois não respeitavam nenhum código de honra, não buscavam a harmonia, e se achavam certos sobre tudo… É neste atrito entre mundos e realidades, quando as individualidades e identidades se chocam, que se produzem faíscas – que podem gerar o fogo da vida, ou um incêndio que destrói e mata.

Sim, é uma questão de escolha.

Como já foi dito: Um bom Teatro é aquele que dói. Dói no indivíduo, dói na identidade; e obriga a sua alteridade se manifestar. Existe uma diferença entre “vida” e “viver”: Cotidianamente, “vida” é esta luta constante em busca do prazer, ou para evitar a dor. Tudo o que as pessoas fazem hoje, e que erroneamente chamam de “vida” se resume nessa frase: “buscar o prazer ou evitar a dor” – desde a mais simples decisão de comer mais um bombom (para ter prazer), ou não (para evitar a dor de se sentir mal consigo mesmo, ou de ir para academia no stress de queimar mil calorias ). “Viver” é outra coisa, viver é estar atento. Atento para a poética, atento para a graça, para as mudanças, para os fatos, para as linhas de energia que se trafegam diante dos olhos, então atentos. Dessas 16 horas por dia que te sobram depois que você acorda, quanto tempo você vive, e quanto tempo você segue a vida? A partir do momento que você parou para pensar nisso, o que se manifestou foi sua alteridade, o que gerou uma pequena faísca.

Quem é você? Quem é você agora?

Coexistimos numa sociedade que nos obriga a permanecer no passado ou no futuro. Estamos sempre com saudades ou com ansiedade. Saudade é um sentimento do passado, ansiedade é um sentimento do futuro. Ficamos lembrando “daquilo”, de algo que feito ou que se fazia; ou ansiamos aquilo que ainda não aconteceu. Estamos numa sociedade que não nos permite viver o agora.

Um bom Teatro, tanto na sala de ensaio, quanto na sala de espetáculo, permite que você retire cada camada de subjetividade, de racionalização, de desculpas, deixando apenas o que é próprio seu, e não o que te fizeram acreditar que era. Pelo prazer ou pela dor, você vai desabrochando, revelando algo além de sua identidade, algo que você talvez não seja capaz de nomear. Quando um bom Teatro acontece, ele acontece em você, e você está presente, no momento presente.

E é neste momento, neste lugar, quando você se permite vivenciar um bom Teatro, quando você se defronta com mundos e realidades que se chocam e produzem faíscas, e que podem gerar vida ou não. Escolha pela vida! Escolha viver isto! Porque esse atrito que você irá enfrentar, será com alguém que você não está acostumado a reconhecer por aí – praticamente um desconhecido – será com aquela pessoa que você costuma chamar de “eu”.

E isto, é um presente.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com

  • É incrível como você, meu amigo, é capaz de estabelecer uma conexão direta com o Grupo Brinquedo Torto, seu momento, seus anseios, suas dúvidas e seu momento estético, ético, patético ou dietético. Seu texto é ótimo, e eu fico imaginando a riqueza do debate da semana que vem.

    MUITO OBRIGADO!

  • Gabrielle

    “[…]esse atrito que você irá enfrentar, será com alguém que você não está acostumado a reconhecer por aí […]”.Reconhecer por aí. No teatro estou me conhecendo , porque estou em outro mundo.

  • Miguel Tescaro Fagundes

    Realmente, entrar em conflito consigo mesmo é difícil, mas é necessário.
    Faço as palavras do Varlei as minhas, é incrível como você é capaz de estabelecer uma conexão direta com o Grupo Brinquedo Torto no momento atual.