Teatro não é ‘acordo’ entre o ator e o espectador. Teatro é comunhão.

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A função do teatro mudou, e a profissão do ator evoluiu. Não podemos mais nos permitir ser as marionetes do poder público, e servir como propaganda como já fomos em vários regimes políticos; e não precisamos mais ser o entretenimento dos reis; não somos mais necessários como portadores de novidades, como éramos em eras passadas; como também não temos espaço, nem impacto, quiçá reconhecimento, para interferir no bom andamento das feiras, e no trafego de pedestres. Podemos apresentar histórias sagradas hindus, cristãs, judaicas; mitologias africanas, nórdicas, indígenas… mas não deveríamos mais ser instrumento de catequização, de doutrinamento político e/ou religioso. Podemos transmitir saberes e conhecimentos; mas não moldar, o teatro não serve como fôrma onde colocamos um ser humano e retiramos um ser dócil. Muito pelo contrário, quando um ser conformado entrar num teatro, deve sair de lá como um ser livre. Cônscio. Ou pelo menos, Vivo.

“Viver é estar atento”, disse um poeta.

“Nunca se vence uma guerra lutando sozinho” disse outro. “E nem se faz teatro” você pode falar. Você, poeta da cena. Você, esse ser complexo, que chamamos de “ator”.

Durante séculos uma dúvida acompanhou os atores e as pessoas que estudaram a nossa arte: “O Teatro é a arte de ser várias outras pessoas?” ou “O Teatro é a arte de ser você mesmo?”

Não existe uma resposta fácil ou simples. E tentar responder, aceitando como verdade absoluta uma coisa, ou outra, não faz mais sentido. E dizer simplesmente: “as duas coisas”, é bobo, ingênuo, preguiçoso. E no teatro não há espaço para preguiçosos, lamento.

“Ninguém é uma ilha”, você já deve ter ouvido essa frase, ela também foi dita primeiro por um poeta; em um poema que diz que todos estamos conectados, que cada dor, é sentida por todos. E que todos devemos lamentar cada morte que acontecer. Quando um ser humano falha, enquanto humano, todos nós erramos. E ninguém sente cada dor, cada morte, como nós, poetas da cena. Porque temos a obrigação de repetir essas mortes todas as noites; porque temos que fazer lembrar os outros, aqueles nos veem, de sua própria fragilidade.

A arte de ser vários? Longe disso. A arte de ser nós mesmo? Nem perto disso.

Os outros, e nós mesmos, somos apenas o caminho, apenas um meio de acesso, para que o Outro e Nós mesmos, possamos nos encontrar.

O Teatro só acontece quando permitimos que o outro se reconheça em nós.

Quando o teatro começou na Grécia, seu palco era redondo, e o ápice da apresentação era ao meio-dia; redondo para não haver cantos, quinas, nada que pudesse ser usado como escudo, como proteção para o ator; ele estava ali, pronto para o abate, e todos os olhares, de toda a plateia, podia atingi-lo; ao meio-dia, para que não houvesse sombra onde os espectadores pudessem se esconder, para que a verdade fosse a mais clara possível, para que doesse e marcasse, na pele e na retina; a humanidade inteira enfrentava o julgo dos deuses, a humanidade inteira era o herói que fracassava, que era punido, e a humanidade inteira era sua testemunha.

O Teatro é a arte de ser todos!

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com