Se você puder não fazer Teatro, não faça. Mas se você não tem outra opção… Por que a dúvida?

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Todos nós, quando percebemos que existe diferença entre brincar e fazer teatro, somos tomados pela mesma dúvida: Eu quero mesmo fazer teatro?

Ser ator é vocação; é exigência; é disponibilidade plena. É entregar nossas preciosidades a alguém que talvez não aceite, ou não entenda – mas isso não importa, porque insistiremos nesse ato até o fim. Porque ele é importante. É importante para nós.

Quando alguém me pede uma opinião, ou me pergunta em algum debate, se eu tenho uma boa sugestão para quem está pensando em começar a fazer teatro, eu sempre respondo que sim: “Não faça!

Se você está pensando em fazer teatro, quer dizer que está decidindo entre várias opções. Quem decide fazer teatro, não tem opção.

Se você perguntar para uma pessoa que tem o teatro como parte indissociável de sua vida, como foi que ela decidiu fazer teatro, é bem capaz que ela não saiba responder. Porque foi orgânico, foi natural. Fazer teatro faz parte de nossa natureza.

E lutar contra nossa natureza só machuca a nós mesmos.

Quando entramos numa sala de ensaio pela primeira vez, e ficamos descalços sem saber por que, quando damos as mãos e formamos aquela roda junto com alguns desconhecidos… quando começamos a jogar bolinhas, a correr atrás do outros, a repetir e decorar nomes de nossos companheiros… nós não fazemos ideia que aquilo que parecia apenas um momento divertido, iria invadir tão profundamente a nossa alma.

Possivelmente precisamos até nos afastar para perceber a falta que tudo isso nos faz. E as vezes nos afastamos. “Damos um tempo”. Quem é do teatro nunca para de fazer teatro, “dá um tempo”.

O teatro parece um ser vivo que habita em nós, com fome, que exige atenção; e quando nos afastamos por algum período, ele parece hibernar; mas de repente, esse ser, esse bicho adormecido, acorda, e começa a nos devorar por dentro, obrigando a gente a voltar a ensaiar, a voltar ficar descalço, formar uma roda com pessoas como nós… Aí você não se pergunta mais se quer fazer teatro ou não; porque você já sabe a resposta.

Não. Você não quer. Você precisa!

Você precisa daquele diretor amigo, ou não; bravo, ou não; engraçado, ou não. Precisa daquelas pessoas que te conhecem, ou não; que te admiram, ou não; e não importa, porque você não está lá para ser engraçado, conhecido ou admirado… sua necessidade de estar lá existe porque você sabe que precisa estar ali. Com aquelas pessoas que confiam em você. Com aquelas pessoas que também precisam de você. Teatro é comunhão.

Quando decidimos – e aceitamos – fazer teatro, não sentimos solidão – mesmo estando sozinhos. Nós sentimos solitude.

Solidão é um sentimento de abandono, de inutilidade, e trás, ou surge de, uma necessidade de companhia. E podemos viver essa situação mesmo cercado por pessoas que nos amam. Solitude é um estado em que estamos sós, recolhidos, mas repletos de satisfação. Porque estamos em paz com a gente mesmo.

E acredito que é isso que nos motiva a entrar para o teatro, ou escolher o teatro, ou a voltar para o teatro… Porque queremos estar em paz com a gente mesmo.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com

  • Carol Tello

    Lindo!! E se pudesse voltar, faria tudo de novo! Encantada com o texto =D

  • Gabrielle

    Muito bom. É natural …

  • Izabelle Araújo Battestin

    E teatro é isso. É uma necessidade!
    Amei o texto *–*