Santo de Casa #02 – Impressões – Shakespeare dormiu lá em casa

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“Impressões” é uma coluna onde buscarei refletir sobre espetáculos que assistir. Muito mais do que uma análise crítica, já que não me sinto confortável em realizar tal feito, procurarei traduzir em palavras, as marcas que as obras assistidas deixaram em mim. Minhas “Impressões” são, desta forma, a combinação do impacto da obra apresentada e meu olhar sobre ela, com pouco ou nenhum interesse finalizar um discurso, de tecer uma visão absoluta e completa do trabalho apreciado. São apenas as minhas impressões.

Começo dizendo que não tinha a menor intenção de escrever sobre dois espetáculos na mesma noite. Mas a beleza do teatro é essa: ele promove encontros inimagináveis, inesperados e arrebatadores. E assim, arrebatado pela experiência que tive nesta noite, inicio este texto expondo a marcas que o espetáculo deixou em mim. 

Shakespeare dormiu lá em casa com o Grupo Zapt

Sinopse: Um velho ator arruinado encena todas as noites um monólogo no qual conta toda sua frustração por nunca ter montado um texto de Shakespeare como deveria. Até que em uma noite de verão, aparece um homem dizendo ser o próprio Bardo e que o ajudará a concluir a façanha. 

fonte: Página do Grupo no Facebook
fonte: Página do Grupo no Facebook

Já é tarde, tomei uma cerveja e o sono bate forte. Várias vezes minha vista embaça, as palavras na tela dançam, os olhos quase fecham e mais de uma vez já pensei em desligar tudo e ir dormir. Mas dentro de mim ecoa uma voz, que me pede, quase ordena que eu escreva. Reparo que mesmo antes de abrir esta latinha, antes mesmo de chegar em casa, algo já ecoava dentro de mim. E não é que era a tal da voz?

Ela me questiona: “Teatrão esse, não é?” Respondo que sim e reflito um pouco mais sobre o que vi. Quatro atores, três cadeiras, alguns outros adereços, tudo muito simples e um trabalho de interpretação, de jogo, de apropriação da palavra tão rico, tão bem cuidado, tão lapidado… Não havia palavra sequer que se perdia, informação jogada fora, piada fora do tempo. Teatrão no sentido mais bonito da palavra. O velho e bom Teatro de Ator. E isso hoje em dia é raro.

Em tempos em que se valoriza grandes produções, quando o público aplaude um cenário gigante que se transforma, eu prefiro aplaudir o ator que ME transforma através do que é aparentemente simples. Quatro pessoas ali em cena, com seus recursos e nada mais (suas vozes, suas pesquisas, suas interpretações, seu jogo) e eu do outro lado me divertindo, refletindo e rindo da forma como o texto nos dá pérolas, brinca com clichês, ganha minha cumplicidade. Nada mais era necessário. O Encontro do Velho Ator com Shakespeare, é o nosso encontro com o bom teatro. Ele, o bardo, estava lá; eu o vi. E após mais uma cerveja, parece que o vejo aqui também. Era a voz que me acompanhava. Está ali, sentado na cadeira à minha esquerda. Esfrego os olhos e ele ri da minha cara. Já não sei quem é mais é maluco: eu, o elenco que fez a peça, você que me lê agora, o cara que está sentado aqui na minha frente gesticulando e rindo.

Sei que terminei a peça me perguntando: “Teria sido real?”. Penso o mesmo agora. Não saberia dizer. Sei que não estou sozinho. Encontrei Shakespeare durante o espetáculo e ele também veio comigo. Vai dormir aqui em casa hoje. Mas ele, assim como eu, depois de duas cervejas, já mostra um pouco de sono, acho que quer dormir. Vou parando por aqui, deixando o sofá pra ele. Entrego-lhe um cobertor, um travesseiro, e antes de dormir, ele me pede pra avisar que está bem orgulhoso do que viu hoje.

Boa noite!

VarleiXavier About VarleiXavier
Professor Xavier é meu herói preferido. Sempre me senti meio mutante, perdido e deslocado, mas o teatro (essa irmandade) me salvou. Desde então, com meus poderes mentais, recruto seres especiais para cumprir minha missão: Levar encantamento ao mundo. Professor, Ator, Dramaturgo, Diretor, Contador de Histórias e Sonhador Potente.