Palco, talvez o último canto do mundo imune a esteriótipos.

Posted on Posted in Colunistas, Isabella Castelani

Muitas coisas se passam em minha mente no momento, fui chamada de gorda essa semana pelo menos dez vezes, é mais de um “xingamento” por dia, mas o principal motivo pela qual decidi escrever foi um artigo que li sobre anorexia uns minutos atrás.

Por que as pessoas se incomodam tanto com o peso dos outros? Por que temos que tentar tanto pra se encaixar nessa ditadura de beleza irreal? Pra que tantas histórias afim de fazer com que nos tornemos produtos convenientes à eles?

Coloque sua maquiagem, faça suas unhas, alise seu cabelo, corra um quilômetro a mais, continue magra, vá fazer compras no shopping, aumente o limite do seu cartão de crédito, compre tudo pra que eles gostem de você. Mostre sua sensualidade, não seja tímida, tire tudo, este não é o lugar que você quer pertencer?

Padrões de beleza sempre existiram, todos sabemos, cada qual com seu nível de preconceito e exclusão. Seguido disso, nós, feministas, surgimos para a busca pela igualdade entre os gêneros em âmbito cultural, político e social. Nem todos entendem muito bem, mas o feminismo é diferente da figura da mulher acima do homem, ou de um arquétipo onde a menina deve ser conservadora.

Gosto do termo “nova-mulher” para utilizar como definição à feministas, pois até então, nós mulheres somos ensaiadas para submissão. Mas mesmo adquirindo certa liberdade e independência a partir dos movimentos feministas, o que sobra da sociedade continua persistindo em usar beleza como algema a novas mulheres. Pra que essa necessidade de nos enquadrar em um esteriótipo?

Estaria mentindo se dissesse que nunca tentei me encaixar, quero dizer, passo maquiagem sim, me arrumo para sair, vou começar meu tratamento dentário mas não por vaidade e sim por necessidade, mas tempos atrás sofri com a pressão doentia da perfeição, fiquei obcecada com a beleza e cheguei a conclusão de que faria uma cirurgia plástica para afinar meu rosto assim que completasse meus dezoito anos, faria academia para ficar gostosa e pronto, mas agora quando paro pra analisar essa situação sinto vontade de desabar, tenho nojo de tais pensamentos. A maior tristeza vem de saber que dentre todo esse mundo há apenas um lugar, um refúgio para doença radioativa denominada esteriótipo, e esse lugar é o palco.

Arte é uma linguagem de intuição, ela nos define sem nos limitar e ter a arte como uma forma de liberdade de expressão é um privilégio tremendo nos dias de hoje. Poucos são capazes de enxergar a própria arte, quem dirá a arte em si próprio, e é exatamente aí que está, o teatro me transmite isso, me transmite a confiança para que eu seja eu sem limites. Muitas vezes sinto como se as cortinas olhassem para mim e falassem “Se joga, ninguém aqui vai olhar para o teu peso, seus dentes tortos ou suas unhas mal feitas!” pois o teatro é feito desses detalhes rejeitados por todos, o teatro é feito de diferenças, ou melhor, o teatro é a diferença.

O teatro é a um submundo onde não há divisões entre os seres, é a luz que me faz enxergar, que faz eu me enxergar, que me faz concluir que eu não sou um bolo para ser gostosa, eu não preciso de rosto fino para me sentir bonita, que não preciso ser magra pra ser linda, porque beleza não é uma coisa que pode ser medida em quilos.

Nós temos o poder sobre nosso corpo, não precisamos tentar tanto por tão pouco. Eu não aceito me submeter a procedimentos cirúrgicos, dolorosos, extremistas, eu não sou obrigada a ouvir comentários ridículos sobre meu peso ou sobre minhas estrias e celulites, eu prefiro encarar minhas estrias como linhas de luz solar na água de uma piscina, e ter orgulho delas. Eu sou o que sou, nasci para ser humana e não perfeita, e digo mais, não estou aqui para ser um robô ou um objeto sexual.

Sou feliz sendo eu, me vejo como arte, e a partir do momento que passei a ver por esse lado, posso dizer que comecei a curtir mais, e curtir é um dos inúmeros benefícios sobre pensar fora dessa caixinha que nos oferecem. Lógico que isso não significa que eu não procure melhorar, mas quando procuro é porque aquilo chegou a um ponto de incômodo meu, e essa atitude é minha e pronto, não é algo que uma revista me impôs e tenho que seguir. Eu sou minha, eu me pertenço, eu me faço arte, eu me imponho.

Precisei mudar meu modo e não ter medo. Novamente: eu não sou um produto.Sou artista e minha roupa curta não é um convite a estupro, meu lugar é onde eu quiser, o meu peso não te diz respeito, a Barbie não me representa. Meu corpo, minhas regras, todos nós somos lindos, cada um de uma forma diferente. Eu sou linda e resolvi ser linda sem precisar de uma televisão para me dizer isso, por que você precisaria?

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About Isabella Castellani
Isabella Castellani é uma futura ativista do greenpeace, atriz, apaixonada por música, literatura, pizza, fotos, conversas, cafés, tumblr e chá-gelado.