“O Teatro é a única escapatória da humanidade.”

Posted on Posted in Reflexões, Ronaldo Ventura

Quais são as últimas 05 notícias que você se lembra dessa semana?
E deste mês?
Lembre 05 acontecimentos deste ano, que marcaram sua vida, ou a vida de muitas pessoas, da sociedade.
Quantas coisas boas você se lembrou? Poucas né? Pois é.

Isso não quer dizer que só aconteceram coisas ruins, mas sim, que você não consegue se lembrar tão facilmente das coisas boas. Temos em nosso cérebro um mecanismo que registra nossas memórias mais recorrentes, e as deixam mais acessíveis. O problema é que fomos treinados a perseguir os defeitos, a nos lembrar apenas do que é ruim.

Nossos pensamentos, memórias, e ideias, estão muito atrelados um no outro. Um pensamento, gera uma ideia, que trás uma lembrança, ou vice-versa, que pode causar outro pensamento… e pensamentos, viram sensações, que geram sentimentos, que geram ação. E como fomos doutrinados pela mídia de fácil acesso a nos ater nos aspectos ruins, acabamos gerando poucas ações boas, ações que poderiam ajudar a nós mesmos. Ações que levariam a humanidade para uma situação melhor.

Por mil motivos, de mil maneiras diferentes, acabamos sendo educados para encontrar o erro, a falha, o que difere, que logo aprendemos a considerar como defeituoso, o que deve ser consertado, ou descartado; o que deve se adequar a força, ou ser expulso do nosso convívio.
Nos moldaram, e sem perceber nós mesmo acabamos contribuindo a anular a Humanidade dentro de nós.

Acha um exagero? Ok… Então… Você se lembra do que aconteceu no 11/09? O famoso “onze de setembro”? Aconteceu algo tão grandioso, que marcou o mundo. Guerras foram travadas por causa do que aconteceu nesta data. Pessoas foram mortas. O mundo se dividiu. Descobrimos um novo inimigo! E se você tiver um pouco mais de 25 anos hoje, talvez se lembre que os vilões dos filmes de ação eram diferentes… eram latinos, tinham bigode, e eram meio sujos, gordos… Quantos produtos culturais, em mídias de fácil acesso, foram influenciados por esse evento? Quanta opinião não foi formada? Quanto isso não permitiu, através de nossa memória recorrente, a ligar fatos, sentimentos, ideias, e ações, a tornar nossa atualidade nessa situação ruim que ela se encontra? Parece um exagero? Ok…

Então, me responda, o que aconteceu em 09/11? São os mesmo números, só estão invertidos. Curiosamente, não existe na sua memória o dia “Nove de novembro”. E neste dia aconteceu uma das maiores conquistas humana da humanidade – frase estranha, eu sei, mas ela faz sentido – Em 09/11 caiu o Muro de Berlim. A maior imagem concreta, o maior símbolo de nossa vergonha, de nossa incapacidade de sermos abertos a diferença. Quando caiu o Muro de Berlim perdemos um inimigo, o mundo mudou – para melhor! Famílias se reencontraram, um país se uniu. Nossa realidade foi alterada para sempre. E ninguém se lembra… Acabamos com uma guerra, sem matar ninguém. Mas isso não fez diferença, porque você não foi educado a festejar nossa humanidade, logo não gerou pensamento, nem sentimento, quanto mais ação.

E qual a base do Teatro? Ação!

O espectador só vislumbra a verdade do ator, só percebe nossa humanidade, e é afetado por ela, através da ação. Nossas ações, geram sentimentos, que provocam pensamentos. Nós temos a capacidade de afetar a memória, e assim, a vida, de nosso espectador.

Diferente das mídias de fácil acesso, exigimos do espectador uma atitude. A plateia não deve ficar confortável num teatro. Ficar confortável é ficar estagnado. O Teatro não serve a isso. A plateia vai ao teatro para se sentir humana. Sentir e manifestar as paixões, fúrias e desejos humanos.

Devemos insistir. Devemos reconquistar aquele nosso espaço, quando tínhamos apresentações de terça a domingo. Devemos martelar nossa verdade até ela se tornar óbvia. Quando nossos espetáculos se tornarem a memória recorrente da sociedade, quando formos uma das 05 lembranças da semana, a humanidade terá alcançado um patamar tão evoluído, que perderão o emprego todos aqueles que se alimentam da miséria: alguns políticos, alguns religiosos e alguns profissionais da mídia de fácil acesso.

Perceba pelas notícias: nossa sociedade está preferindo o pior caminho. O Teatro deve se portar com dignidade. E ser um exemplo. Somos o caminho que permite a cada um encontrar sua própria Humanidade. E devemos nos portar como tal.

Não. Não é uma opção.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com