O Raio-X do 4º Potência – Uma experiência inesquecível

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Sabe aquela sensação gostosa de estar vivendo algo que será lembrado por toda sua vida? Você encontra pessoas legais, tem aprendizados significativos, ri, chora, ganha e distribui abraços, faz algo que realmente tem sentido e que transforma o mundo num lugar melhor de se viver.

Foi exatamente isso que aconteceu durante a quarta edição do Projeto Potência – Intercâmbio Cultural, que aconteceu entre os dias 11 e 15 de Novembro, no Grande ABC, onde grupos de Teatro Estudantil  das cidades de Pará de Minas, Florestal, Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema se encontraram para 5 dias de atividades intensas e transformações significativas. Ao longo deste artigo você, que não viveu esta edição, vai ficar sabendo de tudo o que rolou durante os dias de evento, e você que presenciou tudo, poderá reviver e relembrar esta experiência inesquecível.

Observação: No final deste texto, vou revelar algumas novidades que têm relação com minhas entregas pessoais para que o projeto siga em franca evolução.


Estrutura

A estrutura desta edição foi algo bastante complexo de se executar. Em primeiro lugar, como anfitriões, precisávamos dar conta da hospedagem de aproximadamente 50 pessoas, que viriam de Minas Gerais para o Grande ABC, dormindo em nossa região por 5 dias. Surge aí a primeira grande dificuldade da produção, já que o espaço disponível para alojamento na edição 2014 não estava mais disponível. Foi preciso altas doses de perseverança e um pouco de sorte e depois de muito estresse, um alojamento foi conseguido, mais especificamente nas dependências do CEU das Artes do Jardim Marek, em Santo André, equipamento público recém inaugurado.

Após a última edição em Pará de Minas, o caminho natural do evento era retornar para o Grande ABC. Mas precisávamos manter o nível de excelência estabelecido pela última edição. Acreditamos que seria importante que as atividades acontecessem em diversos locais da região, fazendo um tour cultural pelos espaços e equipamentos das quatro cidades, o que exigiu de nós um esforço sobre-humano no diálogo com prefeituras e secretarias de cultura. Além disso, o fato de que a cada as atividades ocorreriam num espaço diferente do outro, também nos obrigava a buscar deslocamento para todos os grupos, tarefa nada fácil considerando nosso orçamento, advindo das bilheterias dos espetáculos do Grupo Brinquedo Torto e da Trup´iê, que também realizou alguns eventos para captar recursos.

Outra questão que nos preocupava era a alimentação. Seriam aproximadamente 170 pessoas reunidas durante 5 dias, o dia inteiro e parte da noite. Pensamos em muitíssimas possibilidades para viabilizar esta questão e mais uma vez precisamos ter muita perseverança e dessa vez contar com a boa vontade de boas almas que acreditam na proposta. Sempre existem pessoas que aparecem na hora certa e que, como anjos da guarda, resolvem questões que em dado momento parecem impossíveis de serem resolvidas. Assim foi com o Chefe Idolo Giusti, que dispôs de seu tempo e seu serviço de forma voluntária para alimentar todos os participantes. Para esta tarefa, também contamos com o apoio e dedicação das famílias de alguns alunos, auxílio fundamental e que fez com o que o Potência 2016 tivesse carinho e cuidado de mãe.

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Conceito desta edição

Também optamos por propor um conceito que regesse o funcionamento desta edição. Para isso, pensamos em como o projeto começou e o que o trouxe até aqui. A ideia de fazer teatro por um mundo melhor e a importância da coletividade e da colaboração são temas fundamentais até mesmo para o futuro do projeto como um todo. E a partir de um TEDx dos “Caçadores de Bons Exemplos”, utilizamos as seguintes frases como mote desta edição: “Seja a mudança que você quer ver no mundo” e “Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos”, que a nosso ver, representam o que esperávamos que acontecesse.

Dessa forma, desde a abertura do evento, com o “Estatuto do Homem”,  passando pela leitura do Manifesto pela Potência do Teatro Estudantil, pelos combinados feitos antecipadamente e reforçados em conversa coletiva até a apresentação do vídeo abaixo, tudo versava sobre o mesmo tema e reforçava as bases do nosso trabalho: a não competição e o potencial transformador da arte. O resultado? Continue lendo para conferir. Antes, vale a pena assistir ao vídeo:

O mais legal de tudo é que o conceito esteve realmente presente durante todo o evento. E para fechar com chave de ouro, assim que os grupos partiram para suas casas, uma última mensagem cheia de carinho foi enviada via whatsapp para todos os integrantes. De quem era? Exatamente deles, os Caçadores de Bons Exemplos. Confere só!

Atmosfera do evento

Se Potência é igual à energia total dividida pelo tempo e foram cinco dias de energia máxima, podemos dizer sem medo de errar que esta foi uma edição de POTÊNCIA MÁXIMA. Em nenhuma das edições anteriores a interação entre os participantes foi tão intensa como nesta ocasião. Seja em momentos de informalidade, onde o integrantes dos grupos conversavam sobre suas experiências, realizavam jogos, cantavam canções até o momento dos espetáculos, o protagonismo e a participação ativa dos integrantes dos grupos, era algo de se emocionar.

As plateias, aliás, passaram a ser um espetáculo à parte. Todos os espetáculos contavam com uma plateia ativa, ouvinte e atuante, que participava rindo, se emocionando, cantando e transformando cada peça que se apresentava. Em toda a minha vivência em teatro estudantil, não me lembro de ver algo tão apaixonante, tão vibrante. Cada espectador torcia por cada ator em cena, como se torcesse por si mesmo, por um familiar e era como se todos os trabalhos fossem realmente de todos os grupos. Os aplausos ao fim de cada apresentação eram uma mistura de apoio, celebração e orgulho pelos objetivos atingidos. Não houve elenco que não sentisse a forte vibração da plateia.


Espetáculos

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Já são 4 edições, vários espetáculos, muita conversa sobre os trabalhos apresentados; conversas que algumas vezes extrapolam a hora da apresentação e continuam no almoço, no fila de espera para mais uma apresentação e em qualquer momento onde a troca é possível. Tudo isso fez com que em 2016, todos os espetáculos apresentassem um nível técnico mais elaborado, considerando os anos anteriores. Procuramos ao máximo não fazer juízo de valor ou utilizar a comparação como medida, mas podemos dizer que certamente foi a edição que contou com trabalhos tecnicamente muito melhor resolvidos. Resumindo: o nível dos espetáculos foi melhor do que nas edições anteriores.

Outra coisa interessante: creio que já há os espetáculos já podem ser reconhecidos como parte de um coletivo. Há questões, como a música ao vivo, por exemplo, que estão presentes em todos os trabalhos. Talvez seja também possível apontar uma ou outra sutileza estética também, o que prova a influência positiva que um trabalho tem sobre o outro, sem que cada grupo perca sua própria identidade, ou como diz nosso manifesto: “Fomentamos de forma fervorosa a criação de vínculos artísticos, que possam evidenciar e fortalecer características próprias e ao mesmo tempo, provocar um crescimento em conjunto.”

O Grupo de Teatro Colibri, trouxe mais uma vez um elenco visceral, preparado, coeso e totalmente entregue à cena, no arrepiante “Vaga Lumes e Estrelas”, o Grupo Cênico Tatu Bola com os apaixonantes Tatuzinhos em “A Bela & a Fera”,  marcou esta edição pelo bordão “Eu sou a Fera!”, eternizado por Guilherme Aparecido, e com seu elenco mais experiente, da peça “Camila”, resgata o DNA físico e experimental do Tato Bola de anos anteriores; A Pégasus Cia de Teatro provocou uma catarse coletiva com o fortíssimo “Histórias Cruzadas” e sua campanha contra o suicídio; O Núcleo de Teatro Cativar em sua estreia, arranca gargalhadas da plateia com despretencioso “Dois Corações & Quatro Segredos”, trabalho onde pela primeira vez Gabriela Vilas Boas e Miguel Tescaro, integrantes que participaram das edições anteriores, agora assumem uma direção, a primeira de suas carreiras. A Trup´iê, com três espetáculos distintos, discute Escola, Família e Sociedade, com “Quem é você por detrás de todos?”, “Raiz”, experimento cênico realizado entre filhos, filhas e mães e “Do que você precisa?”, fazendo barba, cabelo e bigode; Acalanto, com todo apuro técnico que lhe é peculiar, nos apresenta o hipnótico “A ponte”, mais um quadro extremamente bem construído e o Grupo Brinquedo Torto, com “Menina Jinga” e seu jovem elenco, promoveu uma importante discussão sobre a autoestima da mulher negra.

Todos os anos, busco traçar um Raio-X dos trabalhos e tentar achar alguma unidade, ou um tema transversal que esteja presente em todos os trabalhos. Na edição 2014, encontrei o tema “Sonho” perpassando todos os trabalhos, em 2015, “Memória, Infância e Juventude” davam unidade às produções. Para este ano, ao ler as sinopses dos espetáculos, já vinha observando uma possível relação entre os trabalhos, que se concretizou assim que eu pude assistir a todos. 2016, segundo minha análise, os espetáculos participantes dialogavam todos, em maior ou menor grau, cada um através de linguagens e características próprias, sobre “A DIMENSÃO DO SIMBÓLICO”. Esta minha análise não tem a pretensão de ser uma análise definitiva da edição 2016, longe disso. É apenas um exercício, uma brincadeira a que me proponho todos os anos. Para todos aqueles que assistiram às peças deste ano, convido a fazerem este mesmo exercício e compartilharem comigo.


Reflexões

2016 entra para a história do Potência como um ano de consolidação, de reafirmação e de amadurecimento do Projeto. Também aponta alguns caminhos e sugere algumas reflexões. E mais uma vez, é preciso salientar: o que vou expor aqui é uma análise pessoal. Não tenho o interesse aqui de falar em nome do Projeto Potência. Apenas quero refletir sobre o andamento do projeto e compartilhar com o coletivo e com as pessoas que nos acompanham. Nada de ser o “dono da verdade” ou “certo e errado”. Mais uma vez: apenas reflexões que todos têm o direito de concordar ou discordar.

O Potência 2016, desde sua pré produção me fez pensar que:

  1. O Potência não pode ser apenas um encontro anual, onde os grupos apresentam espetáculos. É preciso aprofundar o contato ao longo do ano. Precisamos, por exemplo, utilizar melhor esta plataforma (nosso site), que ainda é uma ferramenta subutilizada.
  2. Não há Potência sem Colaboração. E CO-Laboração (ou seja, trabalhar junto) implica na divisão de tarefas e responsabilidades. Se o projeto é um patrimônio dos grupos, todos os grupos precisam assumir as rédeas de seu desenvolvimento.
  3. Com o natural crescimento do evento, será preciso que encontremos uma forma de financiamento e captação de recursos mais eficiente. Todo evento ainda é levantado com uma carência muito grande de recursos e a realização de cada edição, tem contado com o surgimento de soluções quase milagrosas, das quais não podemos ser eternos dependentes. Crescer exige esforço e comprometimento.
  4. Precisamos pensar numa forma de fazer com que o Potência ganhe amplitude, deixando de ser apenas um encontro interno. De que forma, o que fazemos pode atingir mais pessoas, promovendo impacto cultural e ao mesmo tempo valorizando e fortalecendo o Teatro Estudantil?
  5. O Potência pode e deve gerar renda aos profissionais envolvidos em sua produção. Mas de que forma?

Para complementar essa minha reflexão, sugiro a leitura “O que eu penso sobre iniciativas colaborativas — ou o que podem realmente ser”de Fabrício Castro. É um texto de fácil leitura e bastante sensato. Muito do texto se aplica ao que fazemos.


Minhas entregas

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Princípio 4 do Manifesto do Doutorado Informal

Reforçando uma das ideias que apresentei acima, mais especificamente aquela que propõe um contato mais estreito com os grupos durante todo o ano, optei por fazer a minha parte no sentido de tornar o intercâmbio mais profundo e constante. Pensei então em algumas entregas minhas para o projeto, coisas que eu posso fazer por ele. E quando digo isso, não estou falando da produção do evento ou dos espetáculos dos grupos de que faço parte. Algo que contribua para o crescimento coletivo. Pensei em algumas possibilidades e vou compartilhá-las aqui. Fica também o convite para outros diretores e integrantes dos grupos, proporem seus próprios projetos e entregas públicas. Lembrando que nada precisa estar pronto, tudo pode ser testado ao longo do percurso mesmo. Sendo assim, colocarei em prática os alguns projetos experimentais, que também têm relação com minha jornada de Doutorado Informal. Os projetos são:

SESSÕES DE MENTORIA: “A mentoria é uma forma de apoiar indivíduos em seus processos de aprendizagem, muito utilizada em ambientes organizacionais. Por meio de encontros presenciais ou a distância, um mentor — alguém usualmente mais experiente que o mentorado — faz perguntas, compartilha experiências e referências e escuta a pessoa apoiada, ajudando-a em seus dilemas profissionais e pedagógicos” (Alex Bretas).  Para saber mais sobre Mentoria e o que ela pode fazer por você, clique aqui.  Vou reservar um horário da minha semana ou quinzena (Ainda preciso checar como estarão meus horários no ano que vem), para uma conversa com integrantes dos grupos em encontros virtuais. Nesses encontros, me colocarei à disposição para ouvir questões, oferecer perguntas poderosas e compartilhar experiências. É importante dizer que não tem nada a ver com terapia. É apenas uma troca de experiências e um processo interdependência e aprendizado mútuo.

COLABORATÓRIO DE CRIAÇÃO DRAMATÚRGICA: Neste Projeto Experimental, os interessados, poderão participar da criação dos projetos colaborativos de dramaturgia de alguns espetáculos além de também, caso queiram, desenvolver projetos de dramaturgia para outros grupos do coletivo e/ou para seus projetos paralelos. A princípios, os grupos que contarão com a participação do Colaboratório serão o Núcleo Cativar e o Grupo Brinquedo Torto, por serem os grupos de que eu faço parte e estou abrindo o processo para que, no Potência 2017, esses espetáculos tenham contado com a colaboração de integrantes de vários grupos, tornando o trabalho cada vez mais compartilhado. Legal, não é? Se você gostar de escrever e em interesse em participar deste projeto, deixe um recado nos comentários que entraremos em contato. Detalhe: o grupo já está prestes a iniciar os trabalhos!

CARTAS POTENTES: Projeto de troca de cartas, relatando experiências sobre os processos individuais e experiências teatrais diversas. Também será um projeto construído coletivamente e o funcionamento dele também será discutido, mas se você quer trocar experiências com outros colegas, deixe um recado nos comentários abaixo. A ideia é publicar as cartas aqui no site também, para que possamos documentar este processo.

WEBINÁRIOS MENSAIS: Webinários são seminarios via web. São bate-papos, palestras e oficinas através de uma plataforma virtual. Uma vez por mês, vou abrir um encontro virtual para trocarmos experiências sobre alguns assuntos. Os primeiros webinários serão encontros para dar conta das minhas oficinas que não acontecerão nesta edição do Potência e à medida que forem acontecendo, vamos também buscando outros assuntos de interesse do grupo. Também pretendo trazer convidados para estes bate-papos, a fim de compartilhar experiências sobre diversas áreas do mundo teatral. Mas não ficaremos restritos apenas a teatro. Outros assuntos como Educação e Vida Profissional certamente estarão presentes.


Por enquanto é só

Sei que a postagem foi grande, mas precisava dar conta de tudo. O Potência 2016 acabou, mas deixou seu legado e agora já precisamos começar a pensar na próxima edição. Para todos nós, um fim de ano maravilhoso e um 2017 cheio de Potência.

 

VarleiXavier About VarleiXavier
Professor Xavier é meu herói preferido. Sempre me senti meio mutante, perdido e deslocado, mas o teatro (essa irmandade) me salvou. Desde então, com meus poderes mentais, recruto seres especiais para cumprir minha missão: Levar encantamento ao mundo. Professor, Ator, Dramaturgo, Diretor, Contador de Histórias e Sonhador Potente.

  • Sensacional! Tô muito ansioso para saber o progresso do Potência 2017!

  • Robson Mendes

    Excelente, Varlei!
    Obrigado por compartilhar esse post conosco!
    Sobre “A dimensão do simbólico” nos espetáculos, fiquei curioso para saber mais sobre isso.
    Gostei muito das reflexões, e sobre o item 5 “Renda para os profissionais envolvido em sua produção”, uma possibilidade seria colocar ingessos a venda para um público externo.
    Essa grana poderia ser usada para a ajudar nos custos da edição seguinte do Potência por exemplo. Mas não sei se isso estaria dentro da proposta do projeto.
    Também acho que seria interessante conversas sobre produção em geral, sobretudo do Potência, assim conseguiríamos melhorar também nesse ponto.
    No mais, parabéns pelo texto!
    É um registro maravilhoso desta edição do Potência!
    Abração 😀