O que senti ao assistir a “Vermelho Esperança”

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Entendendo o contexto

Há exatamente 10 anos atrás, motivado pelo desejo de contar algo que não estava sendo contado, escrevi meu primeiro texto teatral, Vermelho Esperança. Era início de 2007 e o Grupo Peixe Vivo, meu grupo de Teatro Estudantil naquela época, vinha adquirindo maturidade e o desejo se aventurar num processo de criação de dramaturgia e pesquisa de linguagem. Juntos desde 2005 como grupo de teatro, tínhamos muitos desejos, sonhos e esperanças.

Confesso que não me lembro exatamente o que me motivou à escolha do tema. Provavelmente alguma daquelas situações em que temos o contato com a realidade, ela nos toca, nos choca e, como artistas, nos sentimos na obrigação de investigar o assunto profundamente. Lembro-me do olhar de espanto e encantamento com a ideia que propunha a meu jovem elenco. Jovem mesmo: todos tinham entre 10 e 14 anos. Vínhamos da montagem de uma comédia, O Médico à Força, de Moliere, com texto na íntegra em linguagem rebuscada, mas com um caráter bem infanto-juvenil. Era divertidíssimo, mas vínhamos sentindo a necessidade de falar “de” e “ao” nosso tempo. Assim, discutir e pesquisar sobre a vida dos adolescentes que trabalham nos semáforos foi algo que muito rápido nos envolveu, nos motivou e nos encantou. Fomos às ruas conversar com as pessoas e percebemos logo que o assunto era muito mais complexo do que a forma como vínhamos tratando. E depois de  muita pesquisa, muitos exercícios, muita improvisação, iniciei a escrita do texto. Sempre em processo. Levava algumas cenas ao grupo, que fazia seus apontamentos. Depois improvisávamos as possibilidades de prosseguimento da história, juntava todo este material e retornava para casa a fim de dar conta de mais um conjunto de cenas. Assim nasceu “Vermelho Esperança”, de forma experimental, didática e colaborativa. Eu era o responsável por filtrar, organizar os acontecimentos e o discurso de forma que a história chegasse ao público, mas muito do que foi feito, surgiu do trabalho em conjunto.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto aquela experiência foi um divisor de águas na minha experiência como professor, diretor de teatro estudantil e dramaturgo. Ouso até dizer que ela foi determinante, pois define muito do que sou hoje. Tenho um interesse, quase uma obsessão pela criação, pela elaboração de conteúdo autoral construído colaborativamente. Nunca escrevi e creio que nunca escreverei uma peça sozinho, levando ao grupo para que seja montada. Para mim, a colaboração do elenco é fundamental. São eles que sempre me oferecem a matéria prima de minha dramaturgia. Mas não só isso, eles também alteram o andamento da criação, através de suas reflexões e apontamentos. Em se tratando desta peça, porém, creio que isso ainda é pouco, pois “Vermelho Esperança” foi o texto que me colocou em contato com Festivais Estudantis de Teatro, promoveu minha primeira viagem interestadual com meu trabalho, rendeu-me os primeiros prêmios de minha vida (embora hoje em dia já não concorde com a ideia de festivais competitivos) além de ter sido o primeiro espetáculo apresentado no que hoje é o “Ponto De Cultura Grupo Brinquedo Torto (Colégio Central Casa Branca)”. É muita coisa para uma obra só.


Ainda assim, olhando para trás, como autor, vejo hoje no texto coisas que não me agradam. O tom narrativo, minha característica até os dias de hoje, vinha na época sem medida. Tanto pela minha falta de experiência, quanto pela minha intenção de provocar cada ator do grupo a sustentar uma cena um pouco mais longa. O tom didático, próprio do teatro estudantil que eu realizo, já que todo trabalho é fruto de investigações e conclusões nossas, também vinha carregado de tintas muito fortes. O discurso vinha muito chapado, forte e pouco dialético. Tudo isso fazia com que eu não gostasse tanto do texto assim. Ao longo dos anos, estes “defeitos” falavam mais alto que suas qualidades.

Até que em Março de 2016, enquanto comia um Temaki após um dia de trabalho, recebo o seguinte e-mail:

Olá Professor,

me chamo Anita e também sou prof na área do teatro, encontrei seu texto no site oficina de Teatro. Eu e meu grupo estamos terminado um curso e gostaríamos de montar a peça “Vermelho Esperança” na conclusão do mesmo. Seriam apenas 2 apresentações com ingressos a preços populares apenas para pagar os custos.
Caso o grupo queira continuar as apresentações faríamos um novo pedido de autorização.

Você se importaria em ceder o texto para esta montagem?

 

Anita Coronel
São Leopoldo, Rio Grande do Sul
 

Em primeiro lugar, nem lembrava de ter colocado meus textos à disposição no site Oficina de Teatro, tinha feito isso há muito tempo e nunca imaginei que alguém realmente se interessaria pelo texto. Com tantos autores de renome, por que alguém montaria um texto de minha autoria, feito para o grupo de teatro estudantil? Aquele sentimento que todos nós temos e que uns chamam de “Síndrome do Impostor ou Complexo de Vira-latas”…  Mas é claro que eu autorizei a utilização do texto. Não haveria motivo para que eu a negasse.

No fim do ano, pude ver algumas fotos do espetáculo já pronto. Enchi-me de alegria e curiosidade de saber qual tinha sido o resultado. Meses depois, recebi de uma das atrizes do grupo mais um pedido de liberação, desta vez, se não me falha a memória, para participar de um Festival e para participar de um edital de ocupação de uma sala em Porto Alegre em 2017. O Festival rendeu-lhe alguns prêmios e os encaro aqui como reconhecimento do trabalho do grupo. Além disso, o grupo foi contemplado no edital e faria uma temporada na capital gaúcha durante um mês. Era a chance que eu tinha de conferir o trabalho.

Quase não foi possível viajar para Porto Alegre para assisti-los. Dificuldades financeiras, problemas de agenda, já estava ficando chateado por não conseguir ir assisti-los. Mas contando com ajuda da família e apoio dos amigos, consegui dar um jeito e fiz um bate-volta insano para assistir à ultima apresentação da temporada.

Por conta da correria de minha visita e alguns imprevistos do grupo, não consegui conversar durante um longo tempo com os integrantes do elenco e da direção, ainda assim, o tempo que tivemos juntos foi bastante prazeroso e senti-me carinhosamente acolhido. Durante grande parte do tempo fui muitíssimo bem recebido por Samuel, marido da diretora, um dos professores/diretores da Trupe Teatro Escola, com quem conversei longamente e por quem passei a nutrir grande admiração pela luta e pela consistência do trabalho. Também contei com a presença de meu amigo Andriolli Costa, jornalista, contador de histórias, podcaster, fotógrafo, estudioso dos mitos brasileiros e colecionador de sacis, que foi me visitar e me fez companhia no aeroporto por um bom período.

Feita toda essa introdução, que não podia deixar de ser feita, e cenário todo apresentado, cabe-me agora dizer sobre a experiência em si, a emoção, as reflexões e os aprendizados que tirei desta vivência incrível.

A remontagem

Em primeiro lugar, ouvi de alguém do elenco que todos estavam apreensivos para saber se eu gostaria ou concordaria com a leitura e as adaptações propostas para o texto. E desde já, cabe aqui uma reflexão: qual a beleza, qual a graça e qual o sentido de um grupo de artistas montar uma obra sem se apropriar dela, imprimindo a sua leitura e as suas impressões acerca do próprio texto?

Sei que há autores que não permitem alterações no texto e exigem que ele seja montado “na integra”, e que muitos ao verem montagens suas, discordam da visão inicial proposta pelo texto, mas eu não sinceramente não consigo lidar com isso. Se alguém vai montar um texto de minha autoria, o que eu espero é que a história inspire e favoreça múltiplas leituras, possibilidades, versões e adaptações. Caso contrário, eu mesmo montaria meu próprio texto. Ao vê-lo encenado por um outro coletivo, me interessa muito mais o que há de diferente do que eu propus do que as congruências.

E neste ponto, o Grupo Teatral Trupe me encheu de orgulho. O trabalho foi realmente de apropriação do texto, de criação, de adaptação, de posicionamento do artista diante de uma obra na qual se inspira, mas que a transcende. O que vi não foi uma quase leitura dramática, como costumamos ver em alguns casos. Senti cada elemento do espetáculo (direção, trilha sonora, iluminação e interpretação de cada ator) não só se apropriando da história, como imprimindo a ela a sua visão, sua leitura, seu ritmo. Isso para mim é arte nos dias de hoje.

Não podia ficar mais feliz com a dose certa de desrespeito à obra. Arte é também transgressão e, neste caso, foi transcendência. O grupo transcendeu à proposta de uma forma tão bela que me tirou a fala, o fôlego e amoleceu minhas pernas. Muito da gordura do texto, resultante do excesso de narrativa, foi substituída por ações cênicas que transmitiam a informação primordial ao mesmo tempo que acrescentavam outras leituras.

A direção de movimento colaborou demais com o andamento da história, pois ampliou as possibilidades de compreensão da narrativa e, vez por outra, nos conduziu ao universo psicológico de alguns personagens. Pude conhecer ainda melhor os personagens que eu mesmo havia escrito. Sensação maravilhosa. É como passar 10 anos sem ver um amigo querido e, ao reencontrá-lo, perceber o quanto cresceu e e evoluiu.

Cada ator defendeu seu personagem não só com dignidade, como com tamanha paixão que mais uma vez, fui às lágrimas. Encontrei-me com possibilidades antes não imaginadas por mim para alguns e pude também ter contato com o DNA de certos personagens, que pareciam estar sendo pelos mesmos atores da época, agora apenas mais velhos. Como explicar? Fiquei impressionado mais uma vez.

Um personagem, em especial, sempre me foi muito caro. Rosa, o da menina mais nova, o único personagem que não foi proposto por um integrante do elenco e sim por mim, foi interpretado por uma menina de 14 anos, contrastando com o restante do elenco, todo com mais de 18. Confesso que ao vê-la em cena e ao, lembrar dos meus antigos garotos, fiquei bastante emocionado. Ainda mais pelo fato de que a atriz, embora jovem, executava seu trabalho com precisão e beleza que faziam exatamente aquilo que imaginava que pudesse acontecer: partir o coração do público.

A única coisa que senti falta foi a discussão da questão racial, proposta pelo texto original. Mas leitura social proposta pelo grupo acaba por si só já contemplando, ainda que indiretamente, o que havia sido apontado. A questão social, aliás, foi um dos fatos que, descobri depois, levou a diretora a propor o texto para a conclusão do curso do qual o grupo participava. E com o trabalho do Grupo Teatral Trupe, profundamente engajado e militante das causas sociais, o trabalho ganhou outra envergadura.

Quando o espetáculo acabou e fui chamado ao palco, tive dificuldade de levantar da cadeira. A emoção era tanta, a felicidade era tamanha que não consegui dizer nada. Aliás, como disse na ocasião, não era preciso. Eles já haviam dito tudo. E naquele momento, fui abraçado por todo elenco com tanto carinho que realmente me senti parte daquilo. Peguei o avião, mais cedo, sem saber o que aconteceria além de perder praticamente duas noites de sono, mas naquele momento, o sentimento de gratidão por ter vivido aquela experiência era tão grande, que percebi que todo o esforço tinha valido a pena.


O que aprendi:

Por fim, reflito sobre os aprendizados que tive ao assistir ao espetáculo e viver esta experiência:

1- Deixei Porto Alegre com uma das sensações que mais gostou de sentir na vida: a de que eu não sei nada. Pode até parecer estranho, mas toda vez que sinto isso, percebo o quanto estou aprendendo;

2- Também reafirmo meu desejo e a minha paixão pela troca, pelo intercâmbio, pois conhecer outra realidade, outro modo de fazer teatro, fez de mim alguém muito melhor e tudo que desejo é mais disso durante toda a minha vida. Para mim, fazer teatro e manter-se numa ilha dentro do próprio grupo e do próprio processo é muito pouco. Não à toa, optei por escrever sobre esta experiência no blog do Projeto Potência e não em meu blog pessoal. Esta não é uma postagem de autopromoção, é muito mais uma reflexão sobre os aprendizados provocados pro uma obra que, embora eu tenha escrito, hoje é propriedade de um outro coletivo. E é claro que, quando falo de intercâmbio, que precisamos escolher um recorte para que possamos aprofundar as relações, pois nem sempre conseguimos nem queremos trocar experiência com todos que nos circundam. As minhas escolhas sempre terão relação com o Teatro Estudantil e tudo aquilo que o envolve;

3- Podemos voltar a nos apaixonar por uma obra nossa mesmo com suas falhas ou incompletudes. “Vermelho Esperança” foi o primeiro de muitos textos que escrevi e que ainda escreverei. Ainda estou em processo, em aprendizado, e quem está pronto, não é mesmo? Mas, em verdade, o trabalho realizado pelo Grupo Teatral Trupe, da Trupe Teatro Escola de São Leopoldo, me fez novamente gostar de uma história que havia escrito e cujo impacto no público, desde que montei pela primeira vez em 2017, foi fortíssimo. Em mãos e terras gaúchas, a história não só manteve-se viva como ganhou força e pode retomar sua função: tocar as pessoas e fazê-las refletirem.

Após 10 anos do princípio desta jornada, sou eternamente grato. Grato ao elenco que inicialmente colaborou comigo e participou daquele início de jornada, a cada um que veio depois deles e, neste caso, principalmente a Cris Rosa, Dani Reis, Gabriele Manteze, Juliana Michels, Luiza do Carmo, Matheus Ramires, Pâmella Magalhães, Kelvin Prudêncio, Samuel dos Santos, Fernanda Fávero, Anita Coronel e todos aqueles que fizeram o “Vermelho” continuar acendendo a chama de minha esperança. Vivemos tempos duros, mas acreditem: vocês trouxeram um pouco mais de sentido à minha vida durante aquela apresentação.

Meu profundo carinho e meu eterno agradecimento!

Quer saber mais sobre o processo de montagem de “Vermelho Esperança”? Vou fazer uma live com alguns integrantes do elenco nos próximos dias. Fique ligado. 

VarleiXavier About VarleiXavier
Professor Xavier é meu herói preferido. Sempre me senti meio mutante, perdido e deslocado, mas o teatro (essa irmandade) me salvou. Desde então, com meus poderes mentais, recruto seres especiais para cumprir minha missão: Levar encantamento ao mundo. Professor, Ator, Dramaturgo, Diretor, Contador de Histórias e Sonhador Potente.