“O que há de melhor no ser humano, só pode ser percebido quando uma história é contada. E a melhor maneira de ser contar uma história é com o Teatro.”

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Buscamos o pertencimento. Nossa rotina diária parece ser movida por uma nostalgia, por uma sensação de falta, aparentemente estamos todo o tempo buscando reviver uma condição de completude, e para isto, utilizamos a maior invenção da humanidade: Nós contamos histórias.

As histórias possuem duas capacidades que nos interessam no momento: Nos relacionam com o Sagrado, e nos dão a sensação de pertencimento.

Contamos histórias o tempo todo. Somos inundados, enxovalhados, por histórias constantemente. Todas as propagandas, todo logotipo, todo design, toda moda, tenta nos convencer e nos seduzir contando alguma história, que por vezes, prometem uma bela história que poderia ser a nossa, basta a gente comprar algum produto.

As histórias podem ser apresentadas em qualquer formato. Um bom arquiteto sabe aplicar conceitos em suas criações, de modo que um edifício em si, já nos apresenta o seu drama, ao olharmos alguns prédios já podemos ser tomados por sua autoridade, ou por sua delicadeza. As igrejas da Idade Média eram construídas muito altas, para que o ser humano ali dentro, se considerasse pequeno diante daquele poder, e assim soubesse seu lugar na história.

Culturalmente, o brasileiro é um fanático por histórias. Nossas telenovelas sustentam assuntos por décadas. Criam opiniões e costumes. Nos afastam do convívio familiar e nos deixam anestesiados por 03, 04 horas, por dia, de segunda a sexta – e antigamente com reprise aos sábados. A televisão não vive de novelas, mas vive de histórias: o que mantém a audiência de um programa de auditório, ou um telejornal, é sua maneira de contar uma história. E como podemos facilmente perceber, que nem precisa ser uma boa história.

Temos uma relação ancestral com o contar histórias. Porque quando as criamos, ou as ouvimos – e ouvir uma história, é vivê-la – nos deparamos com o divino. E nisso está a nossa nostalgia… Vivemos com saudade do que foi sagrado um dia.

E atualmente, a televisão, as ruas, as vitrines, os prédios, o transporte público, o transporte particular, as relações humanas que estão sendo expostas, inclusive as que vivemos… estão nos contando histórias vulgares, ordinárias. E nós merecemos mais. E sabemos disso. E isso gera essa insatisfação que nos faz ansiar e consumir qualquer história de qualidade duvidosa que nos ofereçam.

Essa insatisfação surge porque temos uma ligação com o Sagrado – que posso chamar de Vida, se ficar mais fácil de ser entendido – partilhamos de uma característica própria da Vida: nós criamos!

A Arte se baseia na percepção e na expressão. As artes criam referências, reflexos, e possibilidades. As artes revelam o mundo como ele é, ou como pode ser, ou como ele poderia ter sido.

A Arte nos oferece o retorno ao Sagrado; as respostas para as perguntas; a saciedade do pertencimento, de fazer parte de algo, de sermos úteis, necessários, e relevantes.

E em todas as possibilidades de Arte, é o Teatro aquela que une a Aceitação, a Investigação, e a Contemplação. O Teatro reconecta o Homem com o divino, com a Vida.

Através do trabalho em conjunto do ator e do espectador, a história que surge diante de nós, só faz sentido para quem a recebe. E seu significado é íntimo e particular. Diferente das outras histórias que ao longo dos dias nos forçam a viver; para que o Teatro exista, para que nossa história aconteça, o espectador precisa aceitá-la – essa é a autonomia do espectador, e ela é sagrada – e quando ele a aceita, juntos criamos algo totalmente invulgar, algo extraordinário: junto criamos vida!

A sociedade, ao longo do dia a dia, parece morta, sendo carregada de boleto em boleto, de panfleto em panfleto, de prazo após prazo… quando esta sociedade se encara durante um espetáculo, ela renasce, ela respira, ela alcança sua individualidade – com sua leitura particular da história que ator entrega; e alcança sua coletividade – pois neste momento ela passa a pertencer a algo, algo muito superior a ela mesma. Somos humanos quando vivemos o Teatro. Somos novamente elevados a nossa condição divina de criador. Voltamos a nos integrar, a fazer parte, daquilo que estou chamando de Vida.

O teatro é o melhor lugar para estar. É onde você tem que dar o seu melhor.

Às vezes para o seu espectador se tornar uma pessoa melhor, e assim mudar o mundo, só precisamos de uma história.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com