“O ator vive no desconforto. Se sente confortável no desconforto. Caso fosse acomodado, nem sairia de casa para ensaiar.”

Posted on Posted in Ronaldo Ventura

Não é fácil fazer teatro. “Se fosse fácil, se chamava “miojo” e não Teatro”, diz um grupo de teatro amigo nosso; e essa dificuldade, você pode levar para todas as esferas que envolvem nosso fazer teatral: seja na prática ou na teoria; seja antes, durante e após a montagem de um espetáculo. Não, realmente não é fácil. Mas vamos nos ater ao trabalho do ator:

Um espetáculo de teatro não é vida real. Por mais que o ator em cena tenha uma identificação com a personagem, ele não é a personagem. Por mais que o ator se posicione, se coloque positivamente em cena, por mais que ele se revele, e apresente suas próprias paixões e medos… ele não está na sua vida cotidiana, ele não pode se portar como se estivesse em sua vida cotidiana. Quando em cena, ele se utiliza de recursos físicos e vocais, de técnicas de representação, para ser atrativo. Ele amplia alguma capacidade, ele enfatiza alguma habilidade, ele potencializa alguma característica, ele busca alguma maneira de manifestar a sua presença física, que é bem diferente do que faz na sua vida cotidiana.

É próprio dos seres humanos poupar esforço. Buscamos não nos cansar. Ao longo de nossa vida, vamos descobrindo maneiras de fazer os exercícios mais simples (ficar em pé, sentar, etc.) de modo que seja cada vez menos cansativo. Para facilitar nossa vida, inventamos as ferramentas, por exemplo: criamos novas funções para pedaços de madeira e metal, e hoje podemos segurar e cortar a comida sem usar as mãos, de maneira mais rápida, mais eficiente, e com menos esforço: podemos usar garfos e facas, ou hashis – varetas utilizadas como talheres em culturas orientais. O que utilizamos para facilitar nossa vida, são “ferramentas”; como utilizamos nossas ferramentas, chamamos de “técnica”.

Técnica é todo conhecimento prático em prol de algo. É o que também chamamos de “jeito”: O jeito que nós seguramos nossos pratos, o jeito que caminhamos, o jeito que fazemos tudo. E aqui começa a grande diferença entre a Vida Real e a Cena.

Na Vida Real, nós tendemos a economizar energia, nós buscamos o caminho mais fácil, facilitamos a nossa vida. E como foi dito: “Teatro não é vida real”, logo, em cena, você não deveria agir como na Vida Real. Mesmo o simples ato de caminhar, deve estar repleto de características que não são cotidianas. No mínimo, com mais esforço.

Para o ator ser atrativo em cena, ele tem que se esforçar.

Temos que fugir do confortável. Confortável é onde você está agora. Perceba sua postura agora. Você está num lugar que se sente seguro, tanto que se permitiu um tempinho para ler isso; existe uma acomodação no seu corpo nesse exato momento, tente perceber que músculos você não está usando… agora, tente, sem mudar de posição, ou mudar o mínimo possível, ativar o maior número me músculos possíveis. Cansa um pouco, não? Mas se você estivesse apresentando uma cena, com essa postura, o mínimo que você poderia fazer é se cansar um pouco.

Não estou falando de tensão, mas de intenção.

Exigir uma atitude maior dos seus músculos, ajuda a se ter uma maior presença em cena. Seus músculos, nesse caso, são uma de suas ferramentas possíveis; a técnica que você irá usar para melhor eficiência, depende do efeito que você quer causar em quem te assiste.

Cansa. E é desconfortável.

Mas se você praticar durante seus ensaios, essas situações, essas condições, essas exigências físicas, vocais, oculares, e outras, e outras, e outras… se você vivenciar isso constantemente, em algum momento irá perceber que esse esforço não é cansativo; pode ser exigente, pode ser desgastante, mas, de alguma forma, se tornou confortável. Quando isso acontecer, significará que sua técnica se tornou parte de você. Parabéns, você já pode falar que é um ator, ou uma atriz.

Porque é aí que a gente vive. É aí que a gente se manifesta. Nesse desconforto, que acaba se transformando no nosso segundo lar, de tão confortável que é.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com