“Não permita que digam que seu Teatro é inútil. A não ser que estejam certos. Então não faça Teatro inútil!”

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Todas as grandes revoluções e guerras, foram motivadas por questões políticas e/ou econômicas. E todas elas provocaram mudanças drásticas na trajetória que seguia a humanidade. Todas mudaram nossos paradigmas.

De uma maneira bastante simplista, paradigma é um critério, uma decisão, uma “verdade provisória”, é tudo aquilo que você considera como “óbvio”. Mas você só percebe um paradigma quando você o quebra. Quando a realidade muda. Dizem que os paradigmas estão para a nossa vida, assim como a água está para o peixe; o peixe não sabe que existe água, sua existência, sua totalidade, é tão intrínseca a existência da água, que ele só percebe que existe água quando é retirado dela. É como aquela história do mundo ser quadrado: quando todos acreditavam que o mundo era quadrado, não era possível dar uma “volta ao mundo”, não existia essa possibilidade, era algo inimaginável, até alguém provar que era possível, e fez.

Todas as mudanças de paradigmas provocaram (e foram provocadas por) evoluções. E essas evoluções se deram, e se dão, em três âmbitos: na Ciência, na Religião, e na Arte. São esses 03, os geradores de pulsões – impulsos que direcionam o comportamento de alguém.

Quando esses geradores de pulsão, estão em harmonia, ou seja, quando nenhum deles está sobreposto ao outro, nós evoluímos como seres. Vamos pegar o exemplo da cultura árabe, que é tão distante da maioria de nós, e isso permite um olhar mais brando: a religião muçulmana não permite certas expressões artísticas, não se pode representar a figura humana, por exemplo. Isso explica porque não há esculturas, teatro, ou pinturas religiosas de santos, mártires, como há em outras tradições. Essa imposição os levaram a se expor artisticamente de outras formas: a literatura, a caligrafia, a oratória, a arquitetura alcançaram graus elevadíssimos de requinte. Uma das sete maravilhas do mundo, o Taj Mahal, é um mausoléu islâmico. A sua decoração é o auge da estética em cerâmica, e toda repleta de versos do livro sagrado do Islã, mas de tal forma inseridos, que nos remetem a imagens abstratas, enaltecendo a beleza do verso, inspirado na beleza de Deus, proporcionando a beleza para os homens. É um alcance sublime para uma obra de arte. A ciência árabe durante séculos era a mais avançada do mundo, para se ter uma pequena noção de sua influência, basta perceber que os números que usamos em nosso cotidiano, para fazer contas, enumerar tudo em nossa volta, são números arábicos. E se nós dividimos nossas horas em 60 minutos, e esses em 60 segundos, ou então dividirmos o círculo ser dividido em 360 graus; justamente porque o sistema de contagem árabe era sexagenal, ou seja de 60 em 60 (os romanos usavam o sistema decimal, e isso influenciou toda nossa herança latina, perceba: é difícil você contar de modo que não seja de 10 em 10).

Eu fico imaginando onde essa cultura estaria, o que eles teriam criados, se não fossem as guerras políticas/econômicas, e se a religião não tivesse sido utilizada do jeito que foi, e do jeito que está sendo.

Quando a Religião foi sobreposta aos outros geradores de pulsão, nós tivemos uma mutilação. É como se a humanidade não pudesse mais caminhar.

O mesmo aconteceria se a Ciência fosse enaltecida: basta lembra quantos experimentos monstruosos com pessoas foram executados durante os regimes nazistas (político/econômico: extrema-direita), e stalinista (político/econômico: extrema-esquerda), na busca de comprovar a grandiosidade de cada regime, e apresentar ao mundo uma ciência “evoluída”; uma corrida tem como marco histórico a maior criação da ciência até então: a Bomba Atômica – o maior ícone anti-vida da história. Quando a Ciência sobrepôs o Humano, criamos uma arma que só pode ser utilizada quando apontada contra nós mesmos.

Existem motivos (um deles é político e econômico, entenda.) para que a Arte não tenha tido o seu momento de inumanidade, e fosse utilizada para sandices.

Mas porque são esses 03 os geradores de pulsão? Porque todas as perguntas que nos levam e nos levaram além, porque todas as questões motivadoras de mudanças, de quebras de paradigmas, provém da nossa necessidade atroz de entender a Criação, de poder responder: Quem somos? De onde viemos? E agora, o que fazemos com isso que chamamos de “vida”?

Essas questões são tão primais, que para podermos sobreviver enquanto espécie, nós desenvolvemos essas 03 relações com a Vida, esses 03 geradores de pulsões, que nos motivaram, e nos levaram até onde as guerras permitiram, e que depois nos manteve vivos, gerando, criando, impulsionando, até a próxima guerra. Ou até algum desses 03 se tornarem absolutos, e assim, incompleto; mutilado de sua humanidade.

Invariavelmente, esse 03 se cruzam, se mesclam, e se afastam, ao longo da história. E de uma maneira bem simplista, vou defini-los assim:

Religião – se baseia na fé. Cria explicações, normas, é extremamente difícil de quebrar seus paradigmas, pois neles se baseiam suas estruturas. Quando isto acontece, normalmente cria-se outra religião, que passa disputar o cetro da “religião correta”. Foi o que aconteceu com o Islã que se dividiu em Xiitas e Sunitas, com o Cristianismo que se dividiu em mais de 20 religiões, e o que aconteceu com todas as religiões, e irá ser assim para sempre. As religiões tentam EXPLICAR como o mundo foi criado.

Ciência – se baseia na pesquisa. Cria maneiras de entender, de pensar sobre. Criam teorias que tentam comprovar e desmentir constantemente, de modo que essa dinâmica de novos paradigmas, é o que movimentou todas as descobertas terrestres e espaciais, todas as vacinas, todas as tecnologias, tudo que foi criado para possibilitar que pudéssemos nos manter da melhor maneira, e o maior tempo possível, vivos. As ciências tentam DESCOBRIR como o mundo foi criado.

Arte – se baseia na percepção e na expressão. Cria possibilidades. Nos colocam em situações onde os paradigmas são confrontados constantemente. As artes CRIAM o mundo.

Muitas religiões prometem um lugar melhor, mas não neste mundo; muitas ciências, deslocam o Homem, afastam o que há de humano para poderem analisar de uma maneira que supõe-se ser mais eficiente; as artes não. As artes insistem e comprovam o nosso pertencimento. Para a Arte, somos a Vida, estamos nela, dela retiramos nosso sustento, e a ela voltamos.

De todos esses 03 geradores de pulsão, a Arte é a única que possui a característica de ser em si tanto uma força criadora, como força criativa.

E o Teatro, como possui o ser humano como único vetor, único veículo, e única razão, é, entre as artes, a mais poderosa ferramenta da humanidade. Nossos espetáculos têm que ser como a falta d’água para os peixes, temos que retirar nossos espectadores do seu conforto, e fazê-los perceber que estão vivos. Temos que ser o mundo redondo, para as cabeças quadradas aprenderem a dar voltas.

A Economia e a Política sempre que necessário, enaltecem a Religião e a Ciência, porque sabem o poder da Arte; e por isso sempre desacreditam nosso trabalho perante a sociedade. E as vezes, nós mesmos esquecemos de nossa função, e nossa capacidade, e por ser tão difícil conquistar um pouco de espaço, terminamos por fazer um teatro fraco, simples… aquilo que as pessoas chamam de “inútil”. O que dói, é que elas estão certas. Se seu Teatro não move paixões, não destrói um paradigma, não obriga seu espectador a enfrentar a Vida… então, talvez você não esteja cumprindo a função da Arte, e esteja sendo apenas manipulado pela Economia e pela Política.

Não se deixe mutilar! Faça do seu Teatro um gerador de pulsão! Crie Vida!

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com