“Não fuja da responsabilidade de fazer um bom Teatro. Ao tentar, você irá apenas chafurdar na lama da própria mediocridade.”

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Muito já se falou sobre o bom Teatro. Também foi falado sobre nossa responsabilidade. Mas tem um assunto que pode incomodar, e deve incomodar. Pois se não nos incomodarmos com isso, o iremos repetir ad infinitun: a Mediocridade.

Somos humanos, logo, somos falhos. Aceitar nossas falhas nos permite respirar melhor, nos permite criar soluções, nos faz ver com os olhos limpos da ilusão, do rancor e do ego. Mas se nos acomodarmos em nossas fragilidades técnicas, humanas, profissionais… iremos apenas perpetuar a Mediocridade.

Não seja medíocre. Não caia na facilidade de dizer um “não sei”, na mordomia de um “não consigo”, na pobreza de um “não vou fazer porque eu não entendo para quê serve isso”.

Todo trabalho é digno, o nosso apenas exige um pouco mais. Porque o que fazemos modifica as pessoas, cria memórias, define padrões, molda o futuro. Nós somos eternos.

Pegue o exemplo de dois pedreiros, ambos cumprem sua função: colocam um tijolo em cima do outro. Um está fazendo uma parede para cercar um terreno, o outro está construindo a Notre-Dame de Paris. Tecnicamente o trabalho é o mesmo: um tijolo em cima do outro. Aparentemente as duas construções são importantes. Se lhe fosse dada a opção, por qual dessas duas obras você gostaria de ser lembrado?

Existem execuções medíocres em todas as profissões, e existem indivíduos medíocres que não deveriam ter a honra de serem chamados de profissionais. Não seja um deles. Construa catedrais! Faça com que seu trabalho dure por toda a eternidade!

Às vezes irão pedir para vocês ser criativo, e talvez você tenha dificuldade com isso. Mas a criatividade pode ser treinada! Você pode tentar, e com esforço, pode ir melhorando. Um bom diretor reconhece isso, e te ajuda. Por vezes, também irão pedir para você apenas executar um movimento, algo aparentemente simples e bobo, apertar um parafuso, por exemplo. E talvez isso te incomode, porque você acredita estar destinado a funções mais nobres e artísticas, afinal você é um gênio, e talentoso, e sua mãe sempre lhe disse que… Bem, se você não consegue transformar a ação de apertar um parafuso em arte, talvez você deveria tentar fazer outra coisa na sua vida, e não Teatro.

Nós, os atores de todo o mundo, a sociedade, e nossa arte, não precisamos de mais um medíocre. Todas as nossas vagas para pessoas medíocres, mesquinhas, e insípidas, estão lotadas. Estamos apenas esperando eles morrerem, e com eles a má fama que essas pessoas trouxeram para nossa arte. Mas sempre tem alguém precisando de um muro por aí, ache o seu.

Repito: Se você for manter essa sua postura medíocre, você não é bem vindo aqui.

E novamente: Se você der um tapa em alguém, esse tapa irá rodar o mundo todo. Uma agressão, verbal ou física, vai sendo transmitida de um a um, até voltar a você. As vezes você mesmo pode ser pego no meio de uma dessas “ondas” de ódio e receber uma agressão; você pode escolher: passar isso adiante, ou acabar com isso, ali, naquele instante, não revidando, e não transmitindo. Todas os seus gestos de afeto, ou indiferença, podem circular pelo globo, ou não, depende do outro. Mas quando você os executa em cena, não. Depende de você. Quando você cumpre sua função, com honestidade, com dignidade, com a grandiosidade que ela exige e merece – seja colocar um tijolo em cima do outro, seja apertar um parafuso – ela irá afetar a intimidade de cada um de seus espectadores; ela irá criar memória; e você, sua ação legítima, sua arte, irão acompanhar essa pessoa por toda sua vida. E assim, aquele cuja profissão seja realmente colocar um tijolo em cima do outro – ou apertar um parafuso – , fará isso, e tudo o mais o que lhe for possível, neste pequeno espaço de tempo que chamamos de vida, repleto de sua influência.

Nossa função é nobre. Temos a possibilidade de tornar esse mundo um lugar melhor. Não trate com descaso a sua obrigação. Nós não precisamos disso. Não seja medíocre.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com