Não existem atores ruins. Ou se é ator, ou não.

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Aconteceu uma pesquisa, numa universidade americana, onde cientistas colocaram atores sobre uma esteira de testes, ligaram eletrodos em seus músculos, e pediram para eles agirem, andarem, imaginando diversas situações: como se carregassem sacos de comida, ou como se fossem muito velhos, ou encontrando algo assustador, por exemplo. Os cientistas relataram que ficaram espantados como o corpo daquelas pessoas reagia, muscularmente, de maneira bastante semelhante, aos corpos de pessoas que vivenciavam aquelas situações em estado real, ou seja, pessoas que normalmente carregavam coisas pesadas, ou tendo pesadelos, ou com degeneração muscular, etc…

Eu fiquei espantado com a reação dos cientistas. Só depois desses testes todos, é que eles perceberam que os atores conseguiam ser… atores!

Porque apenas foi pedido para os atores repetirem exatamente aquilo que fazem em cena: utilizar seu corpo e suas potências, para modificar as impressões que as pessoas teriam ao ver o mesmo corpo, fora da cena. E como foi comprovado, é uma mudança real! Ou seja:
Atores são aquelas pessoas que utilizam seu corpo e suas possibilidades para recriar uma realidade.

Mas, deixando claro: O ator em cena, não repete a realidade, ele a recria. Nós, em cena, não apresentamos, nós REpresentamos.

Nós utilizamos uma infinidade de mecanismos, técnicas, métodos, práticas, para estimular no espectador o seu próprio desejo de criar conosco aquele momento difícil de colocar em palavras que chamamos de Teatro.

Teatro é aquilo que acontece entre o espectador e o ator. Para que o Teatro aconteça, o ator precisa dispor de certas capacidades que provem de um treinamento, de pesquisa prática, de muito suor na sala de ensaio. Essas capacidades, que vamos chamar de “técnicas”, servem para que o ator possa criar uma realidade que é sobreposta à realidade do espectador.

Dizem que o ator é somente “alguém que mente muito bem”. Eu discordo. Quem mente “profissionalmente” são aquelas pessoas que deviam estar presas; que vendem investimentos fajutos, que recolhem dinheiro com uma promessa de uma vida melhor… Um ator, em cena, não mente: ele apresenta uma outra verdade. Esta verdade, a verdade da cena, que chamamos de representação.

Teatro é comunhão. É um precioso momento onde as verdades, tanto do ator, quanto do espectador, são reveladas. É comum dizermos que teatro é doação; mas às vezes esquecemos que “doar” é um verbo transitivo direto. Quem doa, doa “algo”, para “alguém”. O que o ator doa é toda a verdade que ele conseguiu construir e apresentar utilizando suas técnicas; e quem a recebe é o espectador que aceita esse convite, que é convencido pelo ator, a “embarcar” nesta representação, que está sendo apresentada em formato de espetáculo.

Infelizmente acontece de irmos assistir um espetáculo, e uma pessoa que está em cena não nos convence. Possivelmente ela não tenha técnica suficiente para nos ajudar a criar, junto com ela, aquilo que queremos tanto, aquilo que nos leva a sair de casa, e ir em busca de uma experiência que a televisão, o cinema, a balada, não nos oferece. Então podemos dizer, que aquela pessoa em cena, não está fazendo teatro, não está representando nada. É um mau ator? Não. Não existe ator sem técnica.

Aquela pessoa, simplesmente, não é ator.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com

  • Roberta Conde

    Adoro ler seus textos!
    É um respiro!
    Obrigada!
    Beijos

  • Eu que agradeço imensamente Roberta.

    :O)