INTELIGÊNCIA INTERPESSOAL

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O inferno são os outros” – disse Sartre na sua peça de teatro “Entre quatro paredes” (Huis clos no original).

A inteligência interpessoal atua principalmente na nossa coexistência com os outros – o que às vezes, é um inferno, convenhamos.

Piadinhas infames à parte, o grande problema das relações entre as pessoas, é que o “outro” é fundamentalmente livre. Mesmo que em uma situação que esteja intensamente dominado, a sua consciência ainda será livre, ainda manterá resquícios de liberdade. E isso pode gerar alguns conflitos: às vezes, nossos quereres, nossas vontades, e até nossas verdades, não são as mesmas das outras pessoas, e nós gostaríamos que fosse – claro, a gente está sempre certo… A gente nunca erra…

O outro é o limite de nossa liberdade.

Reconhecer e atuar nesse limite é o papel desta inteligência. É saber reconhecer, e em um grau mais elevado, saber compreender as atitudes, os pensamentos, as ideias, e o senso de humor dos outros.

É comum, em salas de ensaio, em algum exercício, nós imitarmos alguém que já vimos. E fazemos uma postura, criamos uma sensação, impomos um sentimento, e começamos a esboçar uma personagem; ou seja, criamos pensamentos, sentimentos, e ações, inspirados em uma pessoa que talvez nunca mais veremos. Isso é uma manifestação desta inteligência. Mas não é só isso.

O Teatro nos coloca constantemente na vivência de compartilhar espaços, situações, opiniões, e tarefas. E criar arte nessa imensa possibilidade de conflito, nos obriga a exercitar essa nossa característica. E isso também nos permite levar para a vida cotidiana um fator essencial para a transformação da sociedade num lugar melhor: a Empatia.

Empatia é a capacidade de se reconhecer no outro. De se colocar no lugar do outro, e revisitar dentro de si mesmo, suas emoções e pensamentos.

Ser inteligente interpessoalmente é algo mais do que ter a consciência de que o outro existe; é saber que o outro existe em você também.

E ainda tem outra questão:

Tudo aquilo que você chama de “eu”, atua em 03 aspectos: Físico, Mental, e Sentimental. Você é o “eu” que age, que sente, e que pensa. Quando você faz uma ação, você sabe que é você. Assim como quando você sente algo, ou pensa algo.

Nós podemos interagir com as outras pessoas nessas 03 situações: podemos agir com, pensar em, e sentir algo.

Essas interações podem ser Harmônicas, Desarmônicas, e Manipuladoras.

Harmônicas é quando agimos em conjunto com a mesma meta. Pode ser desde um passeio, ou até uma briga. (“bom” e “mau” não está em questão aqui. Essa não é uma questão moral, é uma questão ética.) É um diálogo orgânico, físico.

Desarmônicas é quando parecemos estar no mesmo diálogo, mas em frequências diferentes. Isso pode acontecer tanto em uma situação amorosa, erótica, quando duas (ou mais, sem julgamentos, por favor) estão em pleno envolvimento, mas uma está ali presente fisicamente, e a outra emocionalmente, por exemplo. Na prática, é capaz de ambas estarem satisfeitas, mas até que ponto? Ou por exemplo numa discussão violenta sobre política, onde a fala de um é emocional, e a do outro é racional. Numa situação dessas nada que qualquer um diga, será ouvido, ou fará sentido, pois estão em “lugares” diferentes. Em qualquer situação, é uma perda de tempo e de energia, inteligente aqui seria parar, e tentar novamente quando estiverem todos na mesma sintonia.

Manipuladoras: É o que líderes religiosos, políticos e sociais conseguem fazer. Assim também como aquelas pessoas que criam relações abusivas. Basicamente é quando uma pessoa utiliza conscientemente (ou de maneira “não inocente”) um aspecto seu, para influenciar um outro aspecto de outra pessoa. Exemplos: Quando alguém usa o seu emocional para o outro fazer algo; ou quando usa o seu racional para envolver o sentimental do outro.

Ser inteligente interpessoalmente também é reconhecer, e saber quando se deve parar, evitar, ou manter algumas dessas relações.

Sugestões:

*Peça para um amigo seu te contar uma coisa real que aconteceu com ele, mas sem palavras, e o com o mínimo de expressão nos braços e pernas; ênfase no rosto e no tronco. Tente entender tudo.
*Leia alguns Contos de Fada, e tente definir as intenções reais das personagens principais. E imagine o que aconteceria se essas intenções fossem outras. Dê intenções para as personagens secundárias.
*Faça seus próprios diálogos em filmes: assista filmes com volume baixo, e duble os atores. Crie novas histórias. Tente transformar uma comédia em terror, e vice-versa.

Adivinha o que tem semana que vem? Aparece aqui que te conto.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com