A incrível história de resistência da Cia Tal&Pá

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Imagine que no começo da sua carreira você tem contato com um trabalho que apresenta exatamente aquilo que você acredita. Seu coração dispara, sua boca seca e a única coisa que você passa pela sua cabeça é “É exatamente isso que eu quero para minha vida.”. Você já passou por algo parecido? Pois foi exatamente isso que senti quando em 2005, assisti ao espetáculo “Arena Conta Zumbi”, da Tal&Pá Cia de Teatro.

Hoje, mais de 10 anos depois, decidi entrevistar a professora, diretora e fundadora do grupo, Valéria Oliveira, uma pessoa que inspirou toda a minha carreira, mesmo sem ter contato direto e frequente com ela. Algo que eu ouvi dessa mulher no dia que eu a conheci, teve uma importância absurda nos rumos que minha vida tomou a partir de então. Prometo que no final desta entrevista, conto o que ouvi dela e como isto me influenciou. Mas para começar, vamos conhecer a história dela e do grupo para entender como este coletivo representa muito o ideal de resistência do Teatro Estudantil.

 

Insane - Cia. Tal&Pá Temporada 2015/2016
Insane – Cia. Tal&Pá Temporada 2015/2016

Parte 1: O Começo de tudo

Varlei Xavier Nogueira: Como você começou sua história com Teatro Estudantil?

Val Oliveira: Eu sempre gostei de eventos nas escolas onde estudei ou trabalhei, acho que essa coisa da produção sempre me encantou. Numa dessas atividades que acontecia anualmente na escola surgiu nos alunos a vontade de montar um grupo estudantil de teatro. Na verdade, eles me convenceram…

Varlei Xavier Nogueira: Como foi este processo de convencimento?

Val Oliveira: Nós estávamos envolvidos com a produção de uma casa do Terror, que acontecia todos os anos na festa junina da escola, e da qual participavam mais de cinquenta alunos. No final do processo ficava sempre uma frustração, porque eram muitos dias de trabalho para um único dia de apresentação, e o grupo só se reunia novamente um ano depois. Em 1994, após a festa, um dos alunos me procurou com um texto de teatro que ele mesmo havia escrito, inspirado num filme do cinema. Disse que a gente devia aproveitar aquela turma e continuar trabalhando com teatro no resto do ano. Eu disse que ele estava doidinho, e que eu nem imaginava como fazer aquilo. Ele me esperou todos os dias na porta da escola com o texto na mão durante uma semana. Na sexta feira, eu peguei o texto e disse talvez… Faz 22 anos.

Val Oliveira: Aí um trabalho levou ao outro… e ao outro…

Varlei Xavier Nogueira: História incrível! Um aluno mudou todo o curso da sua vida. Isso também aconteceu comigo.

Val Oliveira: São sempre eles…

Varlei Xavier Nogueira: Em que momento vocês perceberam que o trabalho estava tomando proporções maiores do que o esperado? Aconteceu algo que você considera um divisor de águas?

Val Oliveira: Foram vários divisores ao longo dos anos. A primeira grande virada foi o Festival Estadual de Teatro Estudantil, em 1999. Nós recebemos um formulário na escola e nos inscrevemos, sem muita noção do que aquilo representava. O trabalho foi classificado, havia ajuda de custo, o que permitiu a nossa primeira grande aventura fora do território escolar. Já havíamos nos apresentado em outros espaços, mas nunca num contexto de festival sério, como era o de Tatuí.

Val Oliveira: O festival permitia (e exigia) a presença de dois representantes ao longo dos oito dias de duração. Eu e outro professor que me ajudava naquela época passamos a semana lá, assistindo os espetáculos, os debates, fazendo oficinas. Só então nos demos conta da fragilidade do trabalho que desenvolvíamos na escola, completamente empírico e alicerçado na referência do cinema e da TV.

Val Oliveira: Recebemos toneladas de críticas. Mas havia uma coisa muito especial naquele festival. A despeito da acidez das críticas, não fomos tratados como coadjuvantes. Tudo o que ouvimos nos ajudou a desenhar um novo possível caminho de pesquisa para aprimorarmos o trabalho. Gente muito especial como Clóvis Garcia, Cláudia Dallaverde, Paulo Guarnieri e outros escreveram muitas páginas sobre o que não sabíamos fazer… Nós voltamos para casa, suspiramos, pegamos as listas e começamos a estudar. Fui fazer cursos em oficinas culturais (os primeiros da minha vida), compramos livros, deixamos de lado os filmes B e passamos a trabalhar com textos teatrais. Mas o grupo já tinha uma identidade que vinha das próprias experiências e da referência do vídeo, o que foi muito legal, porque essa característica nunca nos abandonou.  O festival havia nos proporcionado um novo universo de possibilidades. Montamos “Muito barulho por nada”, de William Shakespeare, contextualizado no Rio de Janeiro dos anos 40, era do Rádio, na volta dos pracinhas durante a segunda guerra Mundial. E logo descobrimos que o Tal&Pá havia crescido.

Peça Teatral Arena Conta Zumbi Tal&Pá Cia de Teatro 2006
Arena Conta Zumbi 2006

Parte 2: O quase-fim e o Centro Cultural Aren´art

Varlei Xavier Nogueira: Quanto tempo depois vocês viraram um Centro Cultural e como isso aconteceu?

Val Oliveira: Muito tempo depois, na verdade. O Tal&Pá foi parte do projeto pedagógico da escola, entre 1994 e 2007. Mas a essa altura, diferenças irremediáveis entre a direção da escola e os interesses do projeto quase puseram fim no trabalho. Nessa época, a comunidade se envolveu e impediu o fim do grupo. O Rotary Club de Artur Alvim entrou na briga e deu todo o suporte para formarmos uma associação que fosse independente da escola. Estávamos procurando outro espaço, prestes a deixarmos o Ávila, quando a direção sofreu uma grande mudança. Surgiu a ideia de que o projeto devia continuar ali, mas como parceiro, oficializado a partir do programa Escola da Família que ocupa a escola no final de semana. Essa oportunidade foi a outra grande virada, porque permitiu uma maior independência e a expansão do trabalho. O Centro Cultural passou a coordenar quatro grupos, com a participação de ex-alunos, professores, pais e amigos na administração dos trabalhos.

Varlei Xavier Nogueira: E como tem sido desde então? Quais os avanços conquistados e quais os desafios?

Val Oliveira: Nesses anos todos, conseguimos parceria com a secretaria de Cultura do Estado apenas duas vezes. Nos outros anos, o trabalho sempre foi autofinanciado. Estarmos na escola reduz o problema na medida em que não nos preocupamos com água, luz, aluguel… Mas a manutenção do espaço tem nossa participação direta e o dinheiro para a produção dos espetáculos é levantado com bastante dificuldade. Manter uma associação também é uma dificuldade adicional, temos responsabilidades com banco, cartório, contabilidade… Embora o suporte do Rotary seja sempre precioso, não há muita gente interessada nesse tipo de dor de cabeça. Todos querem participar do trabalho artístico, o famoso “quero ajudar, não quero me comprometer”. São poucos os voluntários que se dispõe a empregar parte da vida nessa empreitada, compreensivelmente. Mas nunca ficamos sozinhos e o trabalho continua consistente, ano após ano. O próprio trabalho forma as pessoas que doarão um momento de sua vida na contrapartida do que receberam aqui. E outras vão se juntando e deixando o projeto, num ciclo contínuo.

Varlei Xavier Nogueira: Conheço bem.

Val Oliveira:  Vi uma entrevista da Ariane Mnouchkine uma vez, na qual ela discutia essa mesma questão.  Sobre como os trabalhos artísticos que se tornam relevantes são dependentes de algumas poucas pessoas, e de como sua sobrevivência é vinculada ao tempo de vida delas. E de como é necessário transmitir o aprendido para que, mesmo diluído, o trabalho continue. Guardadas as devidas proporções, a gente entende bem o que ela diz…

Varlei Xavier Nogueira: Sim. Entende bem.

"O que eu vi, o que nós veremos - 2008"
“O que eu vi, o que nós veremos – 2008”

Parte 3: A contribuição da Tal&Pá para o Teatro Estudantil

Varlei Xavier Nogueira: Como você enxerga a produção de Teatro Estudantil nos dias de hoje?

Val Oliveira: Eu andava meio descrente porque na escola pública mal se dá aula hoje em dia… Quanto mais desenvolver trabalho cultural e voluntário. Ficamos muito sós na região, e com o corte brutal de verbas relacionadas a educação e cultura observado nos últimos anos, também assistimos ao fim de alguns festivais que impulsionavam essa produção. Sem ninguém com quem trocar experiências na região vamos virando ilha. No ano passado, tivemos oportunidade de participarmos de um festival de escolas particulares que, ao contrário de outros menos interessantes que conhecemos, foi muito importante como referência de trabalho sério. Mas é uma pena porque eu acredito muito mais no potencial da escola pública como transformadora da realidade.  De qualquer forma, a Resistência está esparramada por aí, na forma de pequenas iniciativas, quase sempre fora do ambiente escolar, ou nas escolas particulares, mas aí o formato é muito discutível.

Varlei Xavier Nogueira: Creio que seja um trabalho possível, até porque estou numa escola particular. Mas creio que depende muito do apoio e do valor que a direção da escola atribui à atividade. Tenho ótimas experiências, exemplos e formatos, mas também já vi questões que não são tão legais. No Projeto Potência, temos grupos formados por alunos de escolas públicas e particulares.  Você acredita numa possível articulação entre os grupos estudantis do Brasil? Acha que é possível fortalecermos este segmento como um todo através de ações e reflexões coletivas?

Val Oliveira: Acho possível e necessário.

Varlei Xavier Nogueira: Contamos com a importante participação de vocês?

Val Oliveira: Com certeza! Tudo o que não depende de deslocamento do grupo é automaticamente viável. E o que depende, a gente descobre como faz…

Varlei Xavier Nogueira: Como você acha que seria o formato ideal destas ações coletivas?

Val Oliveira: Festivais são fundamentais. Eles deviam ter etapas regionais, para que grupos menos experientes também pudessem participar, o que também reduziria custos com transporte

Val Oliveira: A internet é outro canal essencial.  Os fóruns, encontros virtuais, seriam oportunidades interessantes.

Varlei Xavier Nogueira: Como você acha que o Tal&Pá e o Centro Cultural Aren´art podem contribuir para o fortalecimento do Teatro Estudantil como um todo?

Val Oliveira: Tudo o que temos é nossa experiência e nossa história, e elas estão à disposição de quem quiser compartilhar. Somos a resistência na nossa região, como eu disse, garantindo que a comunidade local tenha um pouquinho do universo teatral aqui na sua porta, o que a levará, algum dia, a outros espaços, motivados pela oportunidade oferecida. Temos um acervo com todos os projetos desenvolvidos, e tudo fica à disposição de quem precisar.

Extra: O que eu ouvi da Vale como isso mudou minha vida.

 

No dia em que eu conheci a Valéria e seu trabalho, após a apresentação de “Arena Conta Zumbi”, um espetáculo lindo, com mais de 40 jovens em cena dançando e jogando capoeira, tive um daqueles processos catárticos fortíssimos que o teatro pode proporcionar. Demorei um bom tempo para levantar da cadeira. Assim que consegui, fui em direção a ela e alguns membros do grupo e disse a única coisa que eu conseguia dizer naquele momento: “Eu quero ser igual você quando crescer…”

Eu já era bem crescidinho, tinha 26 anos na época. Era professora e inicia meu trabalho com grupos estudantis. De todas as respostas possíveis para minha colocação, a única que eu não esperava era a que eu ouvi dela. E isso mudou completamente a forma como eu encaro a arte e o Teatro Estudantil. Com um sorriso de orelha a orelha, Valéria disse num tom cheio de entusiasmo: “… então vamos ser JUNTOS”

Aquilo realmente mudou minha vida. Aprendi que fazer Teatro, principalmente Teatro Estudantil é um ato de resistência, é uma ação que soma, não divide, que há espaço para todos e JUNTOS, podemos ser mais fortes e chegarmos mais longe. Dez anos depois, muitos trabalhos depois, muitas peças de teatro apresentadas e com o Projeto Potência de vento em popa buscando conhecer iniciativas por todo o Brasil, percebo que mesmo fisicamente distante, sou um pouco Val, um pouco Tal&Pá. Arrumei minha forma de SER JUNTO com ela. Serei eternamente grato por isso. E quando alguém diz que quer ser como eu, é com a mesma frase que ouvi dela que respondo.

 

VarleiXavier About VarleiXavier
Professor Xavier é meu herói preferido. Sempre me senti meio mutante, perdido e deslocado, mas o teatro (essa irmandade) me salvou. Desde então, com meus poderes mentais, recruto seres especiais para cumprir minha missão: Levar encantamento ao mundo. Professor, Ator, Dramaturgo, Diretor, Contador de Histórias e Sonhador Potente.

  • Val Oliveira

    Ao Varlei e a todas as pedrinhas desse mosaico lindo chamado Projeto Potência, um grande abraço! Reli nossa própria história e, de repente, tenho a impressão de que ela está apenas começando… Juntos nessa jornada!

  • Raphaela Fernanda

    Muito obrigada pelo reconhecimento e carinho. Ler sobre a nossa história e ver o quanto crescemos ao longo dos anos traz ainda mais força para os anos que virão. Grande abraço! <3