Impressões – Ponto Segredo

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Mais uma estreia de coluna para este espaço de trocas, encontros e aprendizados. “Impressões” é uma coluna onde buscarei refletir sobre espetáculos que assistir. Muito mais do que uma análise crítica, já que não me sinto confortável em realizar tal feito, procurarei traduzir em palavras, as marcas que as obras assistidas deixaram em mim. Minhas “Impressões” são, desta forma, a combinação do impacto da obra apresentada e meu olhar sobre ela, com pouco ou nenhum interesse finalizar um discurso, de tecer uma visão absoluta e completa do trabalho apreciado. São apenas as minhas impressões.

E para iniciar esta jornada, um trabalho escolhido a dedo: “Ponto Segredo – Primeiros Fios”, do grupo Pontos de Fiandeiras, apresentado no Teatro do SESI Mauá. Já havia assistido ao espetáculo uma primeira vez e me propus esta releitura por saber do que se tratava e para apurar meu olhar sobre este trabalho que da primeira vez muito me agradou. Os primeiros fios a serem tecidos desta coluna deveriam mesmo ser os fios dessas meninas. O motivo, ou meu segredo, logo será revelado. Antes, costuro aqui a ficha técnica do espetáculo:

PONTO SEGREDO. PRIMEIROS FIOS

(vencedor do Prêmio CPT 2013 na Categoria Dramaturgia)

Sinopse do Espetáculo

Enquanto fiam e tecem, três velhas remendam e arremedam suas lembranças: à vida no interior, ao trabalho duro, à saudade de seus amores costuram as canções de fiandeiras, a solidão e os segredos há muito guardados. Esse desfiar de lembranças individuais busca entremear-se à memória do espectador para com ela tramar a cumplicidade do encontro e, quem sabe, os fios da memória coletiva.

Ficha Técnica

Direção: Sérgio Pires

Dramaturgia: Adélia Nicolete

Direção Musical: Fanny Cabanas e Pontos de Fiandeiras
Preparação Vocal: Fanny Cabanas
Preparação Corporal: Pontos de Fiandeiras
Elenco: Camila Shunyata, Roberta Marcolin Garcia e Vivian Darini
Figurinos: Renata Régis
Costureira: Maria José
Cenário: Ana Patrone, Anderson Costa, João Paulo Maranho e Vivian Darini
Concepção da Iluminação: Lica Barros
Operação de Luz: Lica Barros e Anderson Costa
Concepção de Maquiagem e Cabelo: Lennon Thomáz

​Produção Visual: Estúdio Ampla Arena

Produção: Pontos de Fiandeiras

“Salta, menina”, começam dizendo as três atrizes de um canto do palco, de onde são capazes de ver o público entrando e sentando. O público, por sua vez, observa atento ao ritual das atrizes, ritual quase sempre realizado longe dos olhos da plateia. Só quem faz teatro sabe da importância deste momento que precede a abertura da porta. Entregando algo tão precioso a nós, as três meninas já se mostram simpáticas. Um “Boa noite” e uma conversa revela a intenção do fiar. O encontro. Um ponto onde as nossas linhas se tocam com as delas. Verdade traduzida em imagem. Meu coração palpita. A vontade é de tirar da bolsa uma caneta, um pedaço de papel e começar a tecer meu texto ali mesmo. Vontade de anotar cada palavra dita para, com elas também brincar e bordar meus fios. Contenho-me.

Pontos cantados, trama de vozes bem postas, letras e sons vão aos poucos nos levando à casa das velhas, que vão sendo criadas pelas atrizes às nossas vistas. E como eu gosto deste teatro onde o ator mostra que é senhor de si e com seus recursos e só eles, empresta seu corpo a outra existência. Cantam e logo não são mais elas, são as três velhas, que poderiam ser nossas avós. E creio tanto em cada uma delas que até parece que as vejo mais grisalhas. Pura ilusão criada pelo bom trabalho de ator. De cara, dita-se o ritmo, repleto de silêncios, pausas e olhares. Amo as falas, mas as pausas, as nuances e silêncios, ah, são elas que colorem os espaços. É a pausa do parar para então ouvir o narrar. E como grandes contadoras que são, cada senhora vai mostrando suas dores, seus humores (bons ou maus), as relações se estabelecendo e a trama de cada história sendo revelada, cujos detalhes, guardo em segredo como algo contado ao pé do ouvido.

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Foto: Amauri Martineli

O belo da história está, para mim, no fato de “Ponto Segredo” ser um espetáculo construído, ou melhor, tecido a mão, tendo como pano de fundo a realidade e história do Grande ABC, local onde moro e pelo qual nutro grande paixão. Dessa forma, a peça torna-se ainda mais especial aos meus olhos. O narrar bem feito das meninas me faz sentir o cheiro das comidas de vó,  ouvir os sons das fábricas e do trem, me faz enxergar a velha Tecelagem Ipiranguinha, palco da Primeira Greve do Grande ABC, a construção da linha férrea e da Vila de Paranapiacaba. História boa bem contada junto com narrativa do ser humano, das senhoras já parte de nossa família. Delícia de se ver, de se ouvir. Tudo está presente. Há lugar para o riso, para o espanto, para a emoção, compaixão, revolta… Um teatro artesanal e atemporal por natureza, mesmo que contando fatos e momentos de nossa região, torna-se universal por revelar segredos de nossas avós arquetípicas.

Apenas isto faria o espetáculo um deleite, um trabalho encantador. Mas algo a mais aconteceu. Gente de teatro costuma colecionar histórias, lembrar acontecimentos que ocorreram durante apresentações e que ficam eternamente guardados na memória. Que ator não tem uma história de alguém que não entrou em cena, que esqueceu a fala, que levou um tombo, que rasgou a roupa, quebrou o cenário e por aí vai? Estas histórias são contadas relembrando o acontecido e o que se fez para contornar o problema. Pois neste sábado, o “Pontos de Fiandeiras” tem mais uma história para contar. História que me orgulho de ter presenciado e que contarei aqui, não com o primor do texto de Adélia Nicolete ou com a graça do contar das Fiandeiras, mas com meu olhar míope e ligeiramente torto.

Vinha lá o espetáculo para seu clímax. Uma velha guardava um segredo e, após idas e vindas, decidiu conta-lo às outras duas colegas. Era uma história que parecia trazer em consigo uma atmosfera de dor, de sofrimento. Uma porção de treva surgia das profundezas da alma da senhorinha. Era noite na casa delas e neste momento de extrema tensão, de peso, de máxima densidade, velas e lampiões foram acesos. Deu-se então o incidente: Foi-se também, não se sabe como, a luz de todo o prédio por conta de um blackout, um problema no gerador, pouco importa. Cabe apenas dizer que tudo se apagou, ficando iluminadas apenas as pequenas chamas recentemente acesas, que deixavam o palco em penumbra. Aprendi a gostar desta palavra por conta do curso de contação de histórias que fiz. A claridade revela demais, o escuro esconde muito. A penumbra insinua. Para certas histórias, há que se ter penumbra. Tomo a liberdade de colocar ares de ficção à narrativa dizendo que a tensão e o peso da interpretação da atriz, sustentado pela energia de suas parceiras apagou as luzes de todo o Sesi, talvez do Bairro. Com as luzes, foram também os sons do ar condicionado e até os ruídos da plateia. Os olhares se projetaram para a cena pouco vista, o que nos deu a possibilidade de imaginar a Vila, as fortes ações e acontecimentos que continuarei mantendo em segredo, e naquela luz, encontrava sua atmosfera perfeita. Como eu gosto de presenciar momentos como este. Como eu gosto. Principalmente porque as atrizes, boas pra valer, seguiram o curso da história com nobreza. Finda a história da mulher e o papo volta à normalidade. Como mágica, retorna a luz segundos antes de terminar o espetáculo. Inacreditável.

Foto: Amauri Martineli

Saio de lá com a alegria de ter reencontrado através dos pontos daquele belo bordado as atrizes amigas Roberta Marcolin e Camila Shunyata e ao mesmo tempo de ter vivido aquele momento único para o grupo. O dia em que elas causaram um blackout por conta do eletromagnetismo provocado em cena.

Vim para casa cheio de vontade de escrever e lembrei-me que num outro encontro com Roberta e Camila aconteceu algo parecido. Ambas assistiram à última apresentação da primeira versão de “Gran Circo Pimienta” e, naquele momento, também houve uma queda de luz durante a cena. Comento isso com Roberta e ambos nos lembramos espantados. Qual a lógica por trás de tudo isso?

 *Fotos do Espetáculo “Pontos de Fiandeiras” tiradas no Festival de Paranavaí. (Fonte: Página do Grupo no Facebook)

VarleiXavier About VarleiXavier
Professor Xavier é meu herói preferido. Sempre me senti meio mutante, perdido e deslocado, mas o teatro (essa irmandade) me salvou. Desde então, com meus poderes mentais, recruto seres especiais para cumprir minha missão: Levar encantamento ao mundo. Professor, Ator, Dramaturgo, Diretor, Contador de Histórias e Sonhador Potente.

  • Varlei, muito obrigada pela crítica ao nosso espetáculo. Obrigada pelo seu olhar generoso, traduzido nessa análise. Sei o quanto esse tipo de texto demanda tempo, reflexão, busca de referências, por isso minha gratidão torna-se ainda maior.
    Receba o meu abraço e boa sorte com o blog!

    • VarleiXavier

      Eu é que agradeço, Adélia! Muito obrigado pelo carinho. Comentários como o que vc teceu no face e aqui nos impulsionam e motivam a continuar o trabalho com dedicação.

      Entrarei em contato em breve para uma entrevista para nosso podcast.

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