Impressões #02 – Santo de Casa – 11/07/15

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“Impressões” é uma coluna onde buscarei refletir sobre espetáculos que assistir. Muito mais do que uma análise crítica, já que não me sinto confortável em realizar tal feito, procurarei traduzir em palavras, as marcas que as obras assistidas deixaram em mim. Minhas “Impressões” são, desta forma, a combinação do impacto da obra apresentada e meu olhar sobre ela, com pouco ou nenhum interesse finalizar um discurso, de tecer uma visão absoluta e completa do trabalho apreciado. São apenas as minhas impressões.

Sábado de noite fria. O clima e o dia favorecem qualquer uma que queira ficar em casa, comer uma pipoca, ver um filme ou uma série. Alguns preferem sair para comer uma pizza, tomar uma sopa, outros vão para baladas e bebem, bebem até o corpo cair e a alma voar em espirais. Decidi, como programa para este sábado, mais uma vez ir ao teatro. Eu sei que é algo que poucos fazem, e quando isso acontece, normalmente é em São Paulo. Eu sou ser do ABC e, se puder, prefiro não sair da região. Alguns me chamariam de caipira ou de provinciano. Que chamem. Eu sou de Casa, e decidi ver o que os Santos de hoje me reservavam.

No caminho, bate uma fome. Pararia para comer algo, não estivesse em cima da hora. Lembro então do recado de minha esposa antes que eu saísse: “Não come nada que vou pedir uma pizza.”. Eu precisaria segurar um pouco, e como a grana anda curta, achei bom seguir o conselho e aguardar. E no saguão, com o estômago no pé, logo vejo no centro da sala uma senhora e um rapaz. Ela tira carinhosamente os sapatos e deixa à mostra uma meia vermelha. O rapaz, segura um violão. Mal sabia eu que estava sendo servida a entrada do Menu da Noite. Humilde, gentil e carinhosamente, Solange e Felipe nos serviam Petiscos de Poesia regados ao molho de canção. Os poemas, de sabor acentuado e toques de amargor (créditos dados a Florbela Espanca) equilibravam-se à doçura das canções que os envolviam. Apetite tapeado e paladar preparado. Saborear os poemas me fizeram lembrar dos tempos em que dizia poesia aqui e ali e por esse caminho, cheguei ao teatro. Notas de saudade na ponta dos lábios.

Alguns minutos de espera e somos conduzidos ao teatro, onde seria servido o prato principal, novamente com o AMOR como tema, advertido de cara. Deliciosa e Bendita Massa, de cor clara, toques de farinha, suavidade, doçura; o molho azedo do preconceito e do discurso do ódio tão em moda se opunham e davam harmonia e estrutura ao à iguaria. Saboreei cada pedaço de movimento proposto pela atriz, e a estrutura da massa-texto, e o combinação forte, exigiam certo tempo de digestão. É a época em que vivemos. Amar é saborear o fruto proibido para alguns. Lamentável. Ao fim de alguns minutos, já estava alimentado, meu estômago não roncava, não sentia mais fome. Mais do que isso: sentia o prazer de estar alimentado, satisfeito. Faltava a sobremesa: e se o tema é amor, abraços de amigos fecham o Menu com perfeição. Veio Ronaldo, veio Ana e assim estava finalizado meu jantar. Na saída, paguei o que eu podia, mas muito menos do que o merecido. Segue este texto em forma de afago e agradecimento.

Voltei dirigindo em silêncio, quando vivencio coisas assim, prefiro não ligar o rádio. Vim digerindo ainda. Pensando, sentindo, agradecido por mais uma vez, assistir a uma arte onde o protagonista é o artista e seu trabalho. Parece irônico que isto me encante, mas novamente vejo que no Santo de Casa que faz o Milagre é o Artista. É Solange, Felipe, Ana, Stella, Ronaldo e tantos outros. E é isso: arte é feita por gente. Muito obrigado aos Santos da Noite.

Abaixo, a receita:

 

bendita
Fonte: página do grupo no facebook


Amor Demais

Sinopse: Solange Rossingnoli apresentam poemas Florbela Espanca, Fernando Pessoa e obras próprias, acompanhada de Felipe Rossingnoli.

Bendita entre as Mulheres

Sinopse: Bendita Entre as Mulheres apresenta os primeiros anos do amor e últimos anos de vida de Benedetta Carlini, que se tornou a primeira mulher a ser julgada e condenada por amar outra mulher. A mais nova abadessa da história, que devido a seus milagres e visões divinas, já teria sido canonizada há muito tempo, se não tivesse sido condenada a passar 35 anos isolada de qualquer contato humano, em 1626.

Elenco:

Elenco: Ana Claudia Lima e Stela Ramos

Texto e Direção: Ronaldo Ventura

Música original: Stela Ramos

Adereços, Figurino e Iluminação: Ronaldo Ventura

VarleiXavier About VarleiXavier
Professor Xavier é meu herói preferido. Sempre me senti meio mutante, perdido e deslocado, mas o teatro (essa irmandade) me salvou. Desde então, com meus poderes mentais, recruto seres especiais para cumprir minha missão: Levar encantamento ao mundo. Professor, Ator, Dramaturgo, Diretor, Contador de Histórias e Sonhador Potente.