A FOLHA E O TEMPO – Referências do Acalanto

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Estamos vivos!

Passamos o período do mês de julho em férias, e agosto chegou trazendo novos desafios para o Acalanto. Iniciamos a montagem da peça a ser realizada pelo Projeto Conexões do ano de 2016: “A Ponte”, de Lucienne Guedes. Começamos com a leitura coletiva do texto para o entendimento, e desde então as coisas estão caminhando com calma, detalhadamente e com muito carinho para criarmos uns espetáculo rico de poesia!

Deixaremos aqui um texto que tomamos como referência no entendimento e direção do texto, chamado “A Folha e o Tempo”, de Robson Comelli. Trata-se de uma criação livre, a partir do livro “A história de uma folha”, de Léo Buscaglia. Editora Record, ano 1999, edição 14.

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Essa é uma história sobre o ciclo da vida, sobre o começo, o meio e o fim.

É uma história que fala sobre a morte, que nos mostra como as coisas podem ser vistas de várias maneiras diferentes.

O que será que essa história tem a ver com o ato de fazer teatro? De viver teatro? De experimentar o teatro?

“A FOLHA E O TEMPO”, por Robson Comelli

Era uma vez uma folha chamada André. Surgiu na primavera, como um pequeno broto num galho grande, perto do topo de uma árvore alta. Essa folha estava cercada por centenas de outras folhas, iguais a ela. Ou pelo menos assim pareciam. Mas não demorou muito para que André descobrisse que não haviam duas folhas iguais no mundo.Apesar de estarem na mesma árvore, as folhas eram diferentes. Carlinhos era a folha mais próxima. Mário era a folha à sua direita. Clara era a linda folha por cima.

Todos haviam crescido juntos. Aprenderam a dançar a brisa da primavera, sentindo o vento leve e gelado que corria nas tardes e passava por eles deixando um rastro de calma, também aprenderam a se esquentar bem gostoso ao sol do verão escutando o barulhinho do vento e a se lavar na chuva fresca.

Daniel era seu melhor amigo. Era a folha maior no galho e parecia que estava lá antes de qualquer outra. André achava que Daniel era também o mais sábio, foi ele quem lhe contou que todos eram parte de uma mesma árvore e explicou que estavam crescendo numa praça de bairro. Foi Daniel quem revelou que a árvore tinha raízes fortes, escondidas na terra, bem lá embaixo e também falou dos passarinhos que vinham pousar no galho e cantar pela manhã, uma melodia calma, gostosa de ouvir. Foi Daniel quem contou sobre o sol, a lua, as estrelas e as estações.

André adorava ser uma folha. Amava o seu galho, os amigos, o seu lugar bem alto no céu, os raios do sol que o esquentavam, a lua que o cobria de sombras suaves. Mas também havia ficado muito triste quando, junto de seus companheiros, viu uma árvore da praça pegando fogo, queimando forte, por conta da brincadeira de um grupo de adolescentes que havia jogado álcool e ateado fogo à pobre árvore. André sempre havia achado o fogo bonito de se ver, mas achou tudo aquilo muito ruim,

O verão foi feito de dias quentes e compridos, bastante agradáveis com muitas pessoas indo à praça aproveitar. E então, sentavam – se sob as árvores. Daniel contou à André que proporcionar sombra era um dos propósitos das árvores.

– O que é um propósito?  perguntou André.

– Uma razão para existir, respondeu Daniel. – Tornar as coisas mais agradáveis para os outros é uma razão para existir. Proporcionar sombra aos velhinhos que procuram escapar do calor muito forte é uma razão para existir.

André tinha um encanto todo especial pelos velhinhos. Sentavam em silêncio na graminha fresca, mal se mexiam. E quando conversavam era aos sussurros, bem baixinho falando sobre os tempos passados, lembrando de quando eram jovens, de tudo que já havia acontecido de maravilhoso em suas vidas
As crianças também eram divertidas, embora às vezes abrissem buracos na casca da árvore ou esculpissem seus nomes. Mesmo assim, era interessante observar as crianças brincando.

Mas o verão de André e seus amigos, não demorou a passar, chegando ao fim numa noite qualquer.

 

 

André nunca sentira tanto frio. Todas as folhas estremeceram com o vento gelado e forte, que parecia bater de tão agitado, e ficaram cobertas por uma camada fina de branco, que num instante se derreteu e deixou – as encharcadas de orvalho, faiscando ao sol. Mais uma vez, foi Daniel quem explicou que haviam experimentado a primeira geada, o sinal que era outono e que o inverno chegaria em breve.

Quase que imediatamente, toda a árvore e toda a praça, se transformou num esplendor de cores. Quase não existia mais qualquer folha verde. Alfredo se tornou um amarelo intenso. Mário adquiriu um laranja brilhante. Clara virou um vermelho ardente. Daniel estava púrpura. E André ficou vermelho, dourado e azul, todos estavam lindos e haviam transformado a árvore num arco-íris.

            – Por que ficamos com cores diferentes, se estamos na mesma árvore? – perguntou André, como sempre uma folha muito curiosa.

– Cada um de nós é diferente. Tivemos experiências diferentes. Recebemos o sol de maneira diferente. Projetamos a sombra de maneira diferente. Por que não teríamos cores diferentes? Foi Daniel, como sempre, quem falou. E Daniel contou ainda que aquela estação maravilhosa se chamava outono.

  E um dia aconteceu uma coisa estranha. A mesma brisa que, no passado, os fazia dançar começou a empurrar e puxar suas hastes com mais força, quase como se estivesse zangada. Isso fez com que algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela brisa, reviradas pelo ar, antes de caírem suavemente ao solo. Todas as folhas ficaram assustadas.

– O que está acontecendo? O que está acontecendo? Não estou entendendo – perguntaram umas às outras, desesperadas, com medo e apreensivas.

– É isso que acontece no outono, é o momento em que as folhas mudam de casa. Algumas pessoas chamam isso de morrer – explicou Daniel.

– E todos nós vamos morrer? – perguntou de novo André.

– Vamos sim – respondeu Daniel – Tudo morre. Grande ou pequeno, fraco ou forte, tudo morre. Primeiro cumprimos a nossa missão. Experimentamos o sol e a lua, o vento e a chuva. Aprendemos a dançar e a rir. E, depois morremos.

– Eu não vou morrer! – exclamou ele com determinação – Você vai morrer, Daniel?

– Vou sim… Quando chegar meu momento.

Por um instante, aconteceu um grande segundo de mistério, de apreensão, de expectativa e a folha continuou.

– E quando será isso?

– Ninguém sabe com certeza. – respondeu Daniel a André.

Ás vezes uma folha está doente e não morre, outras vezes uma folha está bem e morre primeiro que suas companheiras, isso é uma coisa que não podemos saber, nem determinar meu amigo.Tudo tem seu momento certo!

André notou que outras folhas continuavam a cair. E pensou: “Deve ser o momento delas.”

Ele viu que algumas folhas reagiam ao vento, outras simplesmente se entregavam e caíam suavemente. Não demorou muito para que a árvore estivesse quase despida.

– Tenho medo de morrer. – disse André a Daniel – Não sei o que tem lá embaixo.

– Todos temos medo do que não conhecemos. Isso é natural. – disse Daniel para animá-lo – Mas você não teve medo quando a primavera se transformou em verão. E também não teve medo quando o verão se transformou em outono. Eram mudanças
naturais. Por que deveria estar com medo da estação da morte?
– A árvore também morre?Para onde vamos quando morremos?

– Ninguém sabe com certeza. Isso também é um grande mistério, mas é um lugar muito bom

– Voltaremos na primavera?  perguntou André, angustiado.

– Talvez não, mas a Vida voltará.

– Então qual é a razão para tudo isso? – insistiu. Por que viemos pra cá, se no fim temos de cair e morrer?

Daniel respondeu no seu jeito calmo de sempre:

– Pelo sol e pela lua. Pelos tempos felizes que passamos juntos. Pelas alegrias, pelos sorrisos, por tudo que aprendemos. Pela sombra, pelos velhinhos, pelas crianças. Pelas cores do outono, pelas estações. Não é razão suficiente?

Ao final daquela tarde, na claridade dourada do crepúsculo, a folhinha Daniel se foi. E caiu flutuando e sorrindo.

– Adeus por enquanto, disse ele à André que depois ficou sozinho, a única folha que restava no galho.

Quase não houve sol naquele dia. E foi um dia muito curto. André se descobriu a perder a cor cada vez mais e mais, ficando cada vez mais frágil.
Havia sempre frio e o vento passava pela folhinha.

E quando amanheceu veio um vento muito forte, muito, muito forte que arrancou André de seu galho. Não doeu. A folha sentiu que flutuava no ar, muito calma. O vento diminuiu mas não parou de ventar,agora mais calmo,mais brando.

E, enquanto caía, André viu a árvore inteira pela primeira vez. Como era forte e firme! Teve a certeza de que a árvore viveria por muito tempo, compreendeu que fora parte de sua vida. E isso deixou André orgulhoso. A Folha pousou num grande arbusto. Estava macio, até mesmo aconchegante. Naquela nova posição, André estava mais confortável do que jamais se sentira e fechou os olhos. Não sabia que a primavera se seguiria ao inverno, e nem que as  folhas secas e aparentemente inúteis, se juntariam com a água da chuva e serviriam para tornar a árvore ainda mais forte.

E, principalmente, não sabia que ali, na árvore e no solo, já havia planos para novas folhas de primavera. André sentiu uma calma muito grande, e adormeceu, tranquilo.

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Não importa o que esteja acontecendo.

Não importa se você é jovem, velho, criança ou adulto. Acredite nas coisas boas. Tenha fé, acredite que tudo vai mudar e vai melhorar.

Ame as pessoas que estão a seu redor, ame os animais, ame a natureza, ame a vida.

Antes de tudo seja feliz, mesmo que isso seja muito difícil. Acredite que a doença ou a tristeza são coisas que irão acabar, mais cedo ou mais tarde.

Sinta a brisa da vida tocar seu rosto, sinta a brisa da vida tocar seu corpo.Sinta a brisa da vida em você, todos os dias.

[Robson Comelli é ator, dramaturgo, professor de teatro, arte – educador e pedagogo. Formado na Universidade Anhanguera, na Escola Livre de Teatro e pós – graduado em Arte Educação, pela Fainc. Atua na coordenação do Grupo Acalanto de teatro,de São Caetano do Sul, há 4 anos.]

About Maju

  • Parabéns pelo texto, Robson! Belíssima metáfora! Estou curioso para saber como anda este novo trabalho de vocês!