Confissões de Anna #8 – Apenas ajudar

Posted on Posted in Brinquedo Torto, Confissões de Anna

stock-photo-10217542-twelve-hands-circle

(www.google.com/istockphoto)

 

Estender a mão, oferecer algo sem querer nada em troca, ter o prazer de ser útil, de servir a algo que pode mudar a vida de muitas outras pessoas. Todos, algum dia precisaram ou precisarão de ajuda, mas nem todos conseguem a oferecer de bom coração.

Na comunidade, o pessoal sempre estava no “corre”, precisando uns dos outros, seja lá para comprar um pão ou erguer um puxadinho. Meu pai era uma das pessoas que mais ajudava a comunidade, ele nunca negou uma mão a quem quer que fosse, sendo uma pessoa generosa e justa. Papai fazia de tudo, ajudava as senhoras irem para a consulta médica no posto de saúde da vila, quando alguém comprava algo, os caminhões de entrega não conseguiam levar a compra até a casa da pessoa, e quem sempre ajudava a carregar? Meu pai.

Voltando para casa, numa noite fria, meu pai viu alguns meninos de rua encolhidos em um canto de uma parede, enrolados no papelão e tremendo de frio. Essa imagem tocou seu coração, e o fez pensar no que poderia fazer para melhorar a vida desses garotos, que só estavam começando a vida. E foi nessa hora que uma lâmpada ascendeu sobre sua cabeça, como nos desenhos animados, e ele teve a ideia de arrecadar dinheiro e mantimentos do pessoal da vila, para dar de comer para essas crianças que não tinha quase nada.

Ele começou a me levar também, para ajudar esses meninos. Eu amava fazer isso, pois sentia meu interior purificar-se, me tornava um novo ser a cada vez. Sempre achei que eu era muito parecida com meu pai no quesito de querer ajudar o próximo, era prazeroso, algo transformador, tanto na minha vida quanto na vida de quem recebia nossa ajuda. Mas não eram todas as vezes que eu ia nessas “missões”, e quando eu não ia, ficava em casa com uma das vizinhas. Como eu disse antes, uns precisam dos outros.

Mas um dia, em especial, quando meu pai e eu estávamos voltando para casa, virando a esquina, ouvimos uma gritaria, voz de mulher e homem, e de repente um menino de cabelos castanho, liso e encaracolado, aparentemente com 5 anos de idade, de chinelos e bermudas, como uma camiseta suja de tinta, saí de dentro da casa correndo para a rua, gritando “ ajudem minha mãe, por favor! ”. Não pensamos duas vezes e já corremos para ajudar. Perguntamos para o tal menino o seu nome e o que estava acontecendo, mas ele correu para dentro da casa novamente, fazendo sinal com a mão para que a gente entrasse.

Entrando na casa, vimos uma mulher aos prantos, caída no chão, encostada na parede, com a cabeça sangrando e os olhos roxos de apanhar, e do outro lado da sala um homem bêbado, todo suado, com a camiseta toda desajeitada e com uma expressão de raiva no rosto. Quando entramos ele estava com um dos braços levantados, prestes a bater nela, quando o menino grita “ PARA, PAI”, e o homem com uma voz grossa disse “ Sai daqui moleque, vai pintar alguma coisa que é o que você gosta, ou então vai sobrar para você! ”. Meu pai vendo aquela cena, logo pegou o homem pela gola da camiseta, o arrastou para fora de casa e mandou ele embora “ Sai daqui, e não volta mais, ou vou chamar a polícia”, o homem saiu cambaleando e falando sozinho.

Eu dentro daquela casa de tijolo sem acabamento, toda bagunçada pela briga que antes tiveram, via aquela mulher no chão chorando e falando bem baixinho “Monstro, monstro “, e quando ia me aproximar ela gritou “ MONSTRO! ”, tomei um susto que até dei um pulo. O rosto daquela pobre mulher dava dó, com os cabelos grudados nas bochechas pelas lagrimas que correram e molharam o chão, e suas mãos escondendo o rosto machucado, suas pernas arranhadas e encolhidas, só mostravam tristeza.

Eu me virei para aquele menino e tentei acalma-lo, o levando para fora, mas ele queria ficar com a mãe, então, enquanto meu pai não voltava, eu sentei no chão junto a ele. Perguntei o porquê de sua blusa estar manchada de tinta, e ele me disse que fazia grafites nas paredes, mas só escondido do pai, pois ele não gostava. Ele me mostrou um desenho que fez, e eu simplesmente amei, o garoto tinha mesmo talento, mesmo sendo tão novo, eu disse “ caramba, que máximo! ”, ele me olhou com os olhos arregalados e brilhantes, me dizendo com um tom surpreso “Você gostou mesmo? ”, balancei a cabeça, sorrindo.

Meu pai chegou, e levamos a moça para o hospital. Depois daquele dia, a vida aquelas pessoas iriam mudar, eu estava sentindo, mas antes de irmos, o menino parou e falou “ Ah, quase esqueci, eu me chamo Maycon”.

Anna Jinga.

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro. 

 

About Gabrielle