Confissões de Anna #6 – Rosa

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Ver na vida algum motivo para sonhar, ter um sonho todo azul…Azul da cor do mar, dizia Tim Maia, mas o sonho começa a se tornar cinza de repente. Caminhamos em uma estrada, e nela há muitos buracos que tentamos desviar, mas sempre caímos em um deles. Ficamos desesperados para sair, sempre olhando para o lado de fora, mas nunca olhamos para onde caímos, pois talvez, naquele buraco, exista uma flor, de uma incrível formosura e um cheiro encantador, que é capaz de fazer os poros de qualquer ser se abrir para um mundo novo, com outros olhos que enxergam seu sonho ali, naquele buraco.  A vida é só um detalhe.

Sempre encarei a vida como um desafio, tentando ultrapassar meus limites e as barreiras que surgiam em meu caminho, pois nessa vida, o que eu mais encontrei foram muralhas bloqueando minha passagem, quando eu estava quase atravessando a linha de chegada, elas apareciam para me impedir. Mas isso me impediu de continuar tentando? Jamais!

Mesmo com todas as dificuldades que enfrentei na escola ou com minha família, tentei ao máximo não me abater, sempre sorrindo e tentando não deixar que nenhuma palavra dura me machuque, buscando minha flor no buraco sem fim que me encontrei. Mas a gente não é de ferro.

Em um dia normal de escola, sentada na cadeira com os braços cruzados sobre a mesa, servindo de base para a cabeça que descarregava todo o seu peso neles, eu olhava atenta a tudo o que acontecia na sala de aula. O som das risadas entrava pelo ouvido e fazia minha mente sacudir, porém não fazia meu sorriso aparecer.

Desanimada para continuar sorrindo, só de pensar em toda a canseira que meu pai tinha para cuidar de mim e ainda dar aulas, em tudo o que eu tinha escutado durante a minha vida sobre a minha cor e do lugar de onde venho, e ver minha família se separar aos poucos, me deixava muito triste. E em meu canto pensando em tudo isso, senti em meu ombro um toque forte e preciso de uma mão que agarrou meu ombro, e logo em seguida ouço uma voz animada me perguntando “ Ei, eu te conheço, não é mesmo? ”, e quando me viro vejo ali uma velha colega do jardim de infância. Que coincidência ela aparecer justo naquele momento da minha vida, que eu pensava em tantos momentos ruins que passei, e o jardim de infância não está fora da lista, já que lá , entre coisas muito boas que aconteceram , houveram coisas ruins também.

Me virei e falei “ Poxa vida, você aqui? ”. Ela me perguntou se eu estava bem, mas não quis falar a verdade, ela mesmo assim insistiu, então dei um sorriso com os lábios fechados, olhando para baixo, revelando meu real sentimento, ela entendeu. Quis saber mais sobre o que estava me fazendo mal, então fui puxando assunto aos poucos dizendo “A vida dá rasteira na gente, e quando percebemos já estamos no chão…”. Eu esperava dela um olhar de piedade, como todos fazem, mas ela me olhava com os olhos firmes, como se conseguisse olhar por dentro da minha alma e sentir o que eu estava sentindo, e isso me impressionava tanto, que me faz parar de falar e encara-la também.

Desabafei o que eu sentia e não sentia, desabafei o peso que por tempo eu carregava, e de repente o tempo para, congela, e só resta ela e eu. Cabeça volta a funcionar, coração bate com mais potência, corpo se reconstrói. Olhar e escutar foram as únicas coisas que a menina, que nem ao menos me conhecia, fez, e isso me bastou. O que ela tinha? Era como se ela já me observasse, e decidiu chegar apenas no momento certo. Ela parecia não se importar com o meu jeito, e também não se importar de ser ela, era uma menina com o rosto iluminado , de um jeitinho doce com gostinho azedo no interior.

No final dessa conversa eu sabia que era o começo de uma amizade, e eu sentia que ela também sabia. Quem diria, encontrar uma velha colega da primeira escola que estudei, e que nem me recordava, reencontra-la agora com 11 anos, construindo essa amizade que começa em um dos momentos ruins da minha vida.

“Tchau, eu preciso ir, mas quando quiser falar eu vou estar aqui contigo. ”, foi embora dizendo essa frase, me lembro como se fosse ontem. Eu olhei para ela sorrindo, não queria que ela fosse embora, estava extremamente grata, ela me fazia muito bem, mas apenas falei “Obrigada, Rosa! ” .

Anna Jinga.

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro. 

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