Confissões de Anna #5 – Família

Posted on Posted in Artigos, Brinquedo Torto, Confissões de Anna

 

 

QuebraCabeca(google.com)

 

Aquelas pessoas que sempre te ligam no dia do seu aniversário, que estão ali para o que der e vier, nunca negando uma mão, estando ali sempre que precisar, na alegria e na tristeza, quando o bolso aperta ou quando você simplesmente sorri, para dar puxão de orelha, e também para sorrir contigo. Elas são sua família, seus parceiros da vida.

Sabe aquela família que cresceu em festa, e com o pouco que tinham, transformam um momento simples em um dos mais especiais da sua vida? Que proporciona uma felicidade tão grande, que quando estão todos juntos não percebem o tempo passar? Pois é, essa era a minha família.

Eu cresci sem a presença da minha mãe, mas meu pai sempre esteve lá. A família do meu pai era muito animada, eu adorava passar minhas tardes de domingo lá. Sempre com muito samba e festa, todo mundo sorrindo, fazendo piadas, não tínhamos medo de falarem voz alta, de rir bem alto, de ser feliz.

Eu amava estar com minha família. Meu tio Deda era irmão do meu pai, ele tinha um sorriso tão grande, parecia ter 40 dentes, ele sempre fazia aquelas piadas que todo tio faz no final do ano, como “ é pavê ou é para comê”, ele tinha um black power muito legal, sempre usando aquelas calças de cintura alta. Meu tio Zeca, era bem sério, até ele ouvir sua música favorita, parecia outra pessoa, era muito engraçado. Meus primos eram todos mais velhos, apenas dois tinham minha idade, Paula e Robson, eram eles que sempre brincavam comigo, dizem que primos são seus primeiros melhores amigos. Eu ria tanto que a barriga até doi, ria com gosto, o olhar até brilhava, a alma renovava, domingo foi o dia mais esperado.

Entre todos os familiares que eu tinha, aquele que fazia tudo isso acontecer era a minha avó Lucinda, com seus 80 anos, nunca parou de trabalhar, fazia bordados no pano de prato para vender. Ela me ensinou tanta coisa, que eu até perdi a conta, pois todas as vezes que ia me visitar contava uma história, me ensinava a dançar como nossos ancestrais lá da África, me ensinou a trançar meu cabelo. Ela fazia aquele caldo de galinha, que dá até água na boca, mas nunca me contou o segredo para ficar tão bom. Seu colo era tão acolhedor, ela me abraçava por inteiro, corpo e alma, sua voz trazia lembranças que eu não me lembro, seu olhar tão sereno fazia a mente descansar, ela tinha um jeito de fazer as coisas como se já soubesse o que iria acontecer, tinha uma doçura na voz misturada com uma firmeza que qualquer um ficaria sem reação, ela tinha um poder de convencer a todos impressionante.

Minha avó foi o pilar da família, mãe de todos, a família tinha um respeito enorme por ela. Nunca gostou de brigas, sempre que acontecia ela entrava no meio e todos abaixavam a cabeça, porque existia regras na casa como: Não brigar, todos que comerem deverão lavar seus pratos, a duração máxima de banho é 15 minutos, sempre repartir com o próximo , entre outras regras.

Nossa família era muito unida, com todos ajudando todos, sempre reunida na tristeza e na alegria…até acontecer. Em pleno domingo, em um dia calmo onde os pássaros cantavam, a manhã era clara e alegre, às 9h30 da manhã o telefone toca, e vem a notícia, Vó Lucinda foi até a sala, sentir a pontada no peito, caminhou até o sofá, se sentou mas não levantou mais. Família em luto profundo, o dia ficou cinza de repente, os pássaros pararam de cantar, as folhas começaram a cair, o vento corria com tanto barulho que parecia chorar. Lagrimas não eram o suficiente para expressar o que todos sentiam naquele momento. Choque, tão grande que fez a ligação que tínhamos se quebrar, família não era como antes, domingos não existiam mais, era só mais um dia.

Eu tinha só 10, mas entendia muito bem o que estava sentindo, dor tão forte que não cabia no peito. Meu pai tentou me confortar cantando para mim, mas só me fez lembrar ela. Família se distanciou, mais, mais e mais, até não existir família e sim parentes. Cada um foi para um canto, só sobrou eu e meu pai, só um tio mora perto da gente, mas sem muito contato.

Eu e minha lembrança vamos seguindo em frente, sempre de cabeça erguida, pois foi isso que ela ensinou ao meu pai, e ele me ensinou.

Anna Jinga.

 

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro. 

 

About Gabrielle

  • Roberta Conde Xavier

    Anna, você tem me ensinado a reconhecer-me no mundo. Estou refletindo sobre quem sou, minhas raízes e tudo em minha volta. Te agradeço imensamente por me proporcionar tudo isso! Quero te conhecer, espero que seja logo. Você já é mais do que uma heroína para mim! Obrigada!