Confissões de Anna #4 – A Liberdade do Sonho

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Dor, alegria, olhos brilhantes, medo, estômago revirando. Vontade de se esconder, de não ser eu mesma. Cada passo que dou me afundo nas profundezas desse mundo que não compreende a beleza e a pureza interior que cada um tem. Quando a noite chega, parece que o sol não vai aparecer, e a cada segundo que passa, os outros são OS OUTROS, e EU sou eu.

Aos 5 anos de idade, nós sempre encontramos amigos onde quer que esteja, amiguinhos vão surgir, afinal, são crianças, e elas, na maioria das vezes, enxergam o que há de mais sincero no coração, não é mesmo?

Toda criança quer ter amigos, ser o popular da escola, o cara ou a menina mais bonita, que todos olham e admiram, ter amigos de sobra, ser convidada para brincar o tempo todo. E como toda criança eu não era diferente, queria entrar na roda dos populares, dos “descolados”, aqueles que por onde passam eram notados e considerados “os caras”.

Minha escola tinha a roda dos populares, eles eram o Clube Liiep, lindos, incríveis, inteligentes e poderosos, assim que se denominaram. Ah… como eu queria entrar para esse grupo, tinha tanta gente legal.

Raquel participava do grupo, era tão legal, tão incrível, todo mundo olhava para ela de tão linda, com seus cabelos louros, lisos e encaracolados, sua pele clarinha e as bochechas cheia de pintinha. Ela tinha um perfume tão bom, tão suave e profundo, como talco de bebê. Pedro, garoto bonito, seus cabelos negros e ondulados encantavam a todos, seus olhos cor de mel eram tão brilhantes quanto uma estrela, ele era tão maneiro, andava de skate, sempre de bermudas e tênis da moda, usava uma corrente de pedrinhas que achou na praia.

Como todo grupo de amigos, sempre há um líder, alguém que influencia a todos, que impõe a moda da vez, e nesse grupo o líder era a Bruna. Que menina! Ela era linda, a pele tão lisa, bochechas rosadas, linda da cabeça aos pés, cabelos ruivos, escorridos até a cintura, sempre usava roupas de marca, unhas feitas toda a semana, e tinha uma voz tão doce que era de se arrepiar, como ouvir os anjos cantarem. Ela que comandava a turma.

Eu queria tanto entrar no grupo, queria muito mesmo, meus olhos não piscavam quando eles passavam perto de mim. Eu costumava ficar no intervalo sentada, nos bancos que eram presos as mesas, com a mão no queixo para ele não cair. Eu tinha que tomar coragem, eu tinha que ir até lá e pedir para fazer parte do grupo, mas parecia que a coragem tirava férias do meu corpo. Então tentei ser notada, usei maquiagem, prendi meu cabelo com alguns turbantes que eu tinha em casa, usava blusas coloridas e saias para ir à escola, e até pedi um tênis da moda para meu pai, esperando ser notada e convidada para fazer parte do grupo.

Meu pai achou isso tudo muito estranho e me perguntou o motivo de eu estar me arrumando tanto ultimamente, e eu tentei esconder falando que eu tinha mudado e queria variar meu estilo, mas meu mestre me conhece né, logo falou “ Ora menina, desembucha de uma vez!” , eu abaixei a cabeça e expliquei toda a história para ele. Ouvindo tudo aquilo com cabeça baixa , mas olhos ainda atentos em mim, aquele olhos de “eu sei bem” , me disse “ Bom, eu não sei como eles são, eu não sou popular , eu não tenho cabelo liso e nem pele clarinha , mas sei que não posso fingir ser outra pessoa por causa de outra! Eu apenas sou, e se alguém for meu amigo, vai ser pelo que eu sou e não pelo que esperam que eu seja. Sei que é seu sonho e tenho orgulho por ter lutado por ele, mas não esconda quem você é , pois então não ira valer a pena”. Aquela voz que entrava pelo meu ouvido e vibrava meu corpo inteiro, me fez pensar o porquê eu estava fazendo tudo aquilo.

No outro dia, eu fui a escola, mas normalmente como eu ia todos os dias. Eu estava no corredor até que me virei e vi Bruna vindo em minha direção. Meu pensamento de primeira, foi que ela notou todos esses dias “meu estilo”, e iria me chamar para fazer parte do grupo, que eu seria uma pessoa popular, arranjaria amigos e mais amigos, e seria convidada para brincar o tempo todo, e muito mais. Porém o que aconteceu foi diferente, ela chegou bem pertinho de mim, me olhou de cima a baixo e deu uma risada tão falsa que me destruiu por dentro como uma torre de cartas que desaba com um só toque. Ela , com os olhos irônicos , abriu sua boca dizendo “ boa tentativa, mas não deu certo, fofa! Eu vi você olhando a gente, se arrumando toda , mas sabe o que é? No nosso grupo, só entra quem tem o perfil, se é que me entende”, ela pegou no meu cabelo com uma cara de desprezo, apertou minha bochecha e saiu andando.

Perfil? E qual é o perfil? O meu sonho de fazer parte de algo que queria tanto, que lutei com tanta força para conseguir, foi destruído porque eu não tenho o perfil. O problema não era o que eu tinha, mas quem eu era. Meu pai estava certo.

Sonho. Sonhei sonhar. Sonhei tanto que achei que era realidade. Sonhei demais e me afoguei em meus pensamentos. Sonhei com tanta força que olhei para o meu interior, e vi outros sonhos. Sonhei tão alto que cheguei aos céus. Sonho sempre, sonho contente, com o coração e a mente. Sonho que sonhar é tão grande , que meu pior pesadelo é acordar.

Anna Jinga

 

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro. 

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