Confissões de Anna #3 – Herói

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Ele tem capa, tem máscara, voa, sobe em paredes, tem olhos claros, cabelo liso, corpo escultural, e alguns até colocam a cueca por cima da calça. Mas no fim, todos salvam o dia. É realmente um modelo a ser seguido, alguém em quem se espelhar, para se destacar, se erguer no meio da multidão, ser a estrela que mais brilha em meio ao infinito de tantas outras.  Esse é herói de todo mundo.

Bom, o meu herói é outro, e eu o chamo de PAI. É nele que vai o meu pensamento quando se fala em exemplo, coragem, garra, em alguém que não esconde a cara e vai à luta. Desde pequena meu pai foi meu espelho, meu guia, meus olhos brilhavam quando eu olhava para ele. Quando eu estava ao seu lado, era como se eu estivesse em uma montanha russa e na hora que o carrinho está subindo, ele se prepara para a descida, meu estomago aperta e eu fico com um medo que chega a gelar meu corpo, meu pai é o cara que me segura na descida e não me deixa cair. É meu chão, meu amigo, minha INSPIRAÇÃO.

Ele nunca falou da minha mãe, eu também nunca me interessei saber sobre ela, pois o que importava era quem estava comigo. Eu morava com meu pai, só a gente, e era incrível. Ele, pessoa muito alegre, sempre cantando e dançando, deixando a casa sempre com uma coisa a mais. Todo fim de semana tinha samba de tarde, ele abaixado do meu lado tocava o pandeiro e eu sambava. Ele que me ensinou a sambar, aliás era um ótimo sambista. Cantar pra mim? Claro que sim, sempre cantava um samba:

“ A beleza é você menina…menina

No seu jeito de olhar (…)

Alegria é você menina…menina

No sorriso que dá”

Mas a capoeira era sua paixão, e logo tratou de me ensinar tudo o que sabia, e me levava para os treinos junto com ele, e para mim era tão divertido que a paixão do meu pai se tornou a minha paixão.

Capoeira foi algo que eu trago desde que eu aprendi a andar, e ver meu pai jogando me trazia um sentimento de orgulho, que enchia o olho de água, até arrepiava, com o pensamento de “poxa, aquele é o meu pai”, encher a boca para falar MEU PAI. Quando treinávamos, ele sempre ficava tão suado que o suor até pingava, mas ele não deixava de me dar um beijo na bochecha e me abraçar, mas eu nem me importava, dando risada da situação. Ele tinha um abraço tão bom, que você se sentia protegida do mundo, seu colo era tão confortante e acolhedor como abraçar as nuvens, eu chegava ao céu em um segundo. Ele tinha um cheiro suave, como uma flor, mas com a agitação do mar, um cheiro inesquecível, inconfundível.

Meu pai, conhecido por toda a quebrada, respeitado por geral, o cara que era não só o meu herói mas de muitas criança, que eram seus alunos na escolinha que ele dava aula. Por onde meu pai passava todos o cumprimentavam, ele deixava um rastro de bondade por onde passava, pois onde precisasse ele estava lá oferecendo sua ajuda, em qualquer situação.

Anjo, herói, amigo, PAI , mais que isso , minha luz. Eu te amo pai , amo com todas as minhas forças, amo que o peito até dói , amor infinito, amor que machuca. Você é e sempre será uma das coisas que me move, que construiu meu caráter , minha personalidade, meu EU. Sou grata por tudo pai. Sei que a gente tinha o nosso jeito mais duro de viver, pois a vida não é fácil para ninguém, você mais do que ninguém sabe disso. É honra que você me ensinou e é por essa honra que eu sempre vou lutar…

Anna Jinga

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Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro.

 

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