Confissões de Anna #12 – Antônio

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(google/pinterest.com)

Desde que eu era criança, lá para os meus 4 anos de idade, minha avó já fazia tranças no meu cabelo. Ela sentada na cadeira de madeira que ficava no quintal, e eu sentada no chão de cimento, sentindo o vento passar por nós e deixando um sopro de felicidade, ele parecia saber o que estava por vir. E com  6 anos eu já estava andando com meus dreads por aí. Minha avó desde sempre, nunca deixou de lado as nossas raízes, me ensinando a importância de tudo aquilo.

Vovó me ensinou a fazer muitas coisas, como colocar turbantes, customizar as roupas, fazer tranças, e após a morte dela eu tive que me acostumar a trançar meu próprio cabelo, mas uma vez ou outra eu ia até a casa de uma velha amiga da família que fazia dreads no meu cabelo sem cobrar nada. Meu pai dizia que eu ficava linda de qualquer jeito, mas eu adorava estar de tranças, porque parecia que minha alma se enchia de poder, meu ser se levantava, e eu me sentia confortavelmente “em casa”.

E naquele dia, eu estava com meus dreads de lã roxa, estava me sentindo tão viva, tão bem, parecia que os dreads eram meu combustível e eu estava abastecida de energia. Saí para a escola, num dia normal daqueles que não acontece nada, nenhuma novidade, todas as coisas sendo como elas são, sem mudanças, o dia não estava nublado, mas também não tinha sol, o céu estava azul e sem nuvens, e parecia que o dia seria com outro qualquer, mas eu estava sentindo que algo iria acontecer a qualquer momento.

Fui à escola, com os olhos atentos a tudo que acontecia, eu parecia um radar, esperando que ocorresse algo de novo e diferente, mesmo que fosse alguém trazendo uma bolacha de sabor diferente no intervalo ou a professora passando uma prova surpresa para a turma, mas nada disso aconteceu, foi um dia na escola como todos os outros, com a mesma bolacha e a mesma aula. Peguei o ônibus e fiquei observando se alguém iria falar algo, iria entrar alguém para mudar o meu dia de alguma forma, mas o que aconteceu mesmo foi o silêncio.

Desci no meu ponto e estava a caminho de casa, subindo o morro, já sem esperanças e achando que minha intuição estava errada, quando vejo um menino, de boa aparência, alto, cabelos com um tom loiro mais escuro, raspados dos lados, e de olhos verdes, estava andando por ali, parecia perdido porque ficava olhando as casas , andava um pouquinho e voltava para o mesmo lugar, então resolvi perguntar se precisava de ajuda, e quando me aproximo ouço, vindo dele  em voz alta “Caraca, que cabelo legal!”, me assustei por um momento e logo em seguida dei risada, percebo que ele não era daqui, seu olhar estava brilhando em direção ao meu cabelo. Perguntei se estava perdido, e ele me disse direcionando o olhar rapidamente para o meu rosto, que estava procurando o caminho de volta para sua casa, “ Me mudei faz pouco tempo para cá, tudo ainda é muito novo. Essas casas parecem todas iguais” ele dizia com um jeito  muito engraçado, parecia até um sotaque.

Ele me explicou onde morava, e eu o ajudei, pela sua descrição do lugar, a chegar até seu destino, e no caminho fomos conversando, ele me disse que se chamava Antônio, estava conhecendo o lugar ainda, ” Você é a primeira pessoa com quem converso desde que cheguei aqui”. Chegamos e quando eu estava me despedindo, vi seu pai na varanda da sua casa gritando “Antônio, por onde andou? ”, notei que era uma família elegante de certa forma, e fiquei imaginando a causa dessa mudança. Me despedi e segui me caminho, sentindo que aquele menino, que conheci por acaso era um mistério a ser desvendado.

Anna Jinga

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro. 

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