Confissões de Anna #11 – Ouço um chamado!

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DSC_0087 (2)(google.com/KENYA – The heart of Africa)

Ouço um chamado, ele vem de longe, por de trás dos montes, atravessando mares. Ele deixa rastros, pisa em cacos, levanta os fracos, desconstrói os ingratos, levanta a cabeça e bate no peito, tem orgulho de onde veio. O chamado vem, te atravessando de dentro para fora, abrindo cada poro, cada sorriso, cada olhar…E o meu vem acompanhado com som do tambor das batidas do meu coração.

Ao passar pelas vielas, vejo crianças, molecada toda feliz, magrela, sorriso banguela, e o que diria Mandela, ao ver que o futuro não garante coisas boas para nenhuma delas, morando ali dentro da favela?

Já vi vários se transformando em traficantes, bandidos, simplesmente por que desistiu da luta, caiu várias vezes, não aguentou o próximo round, se rendeu. Dinheiro é bom é , “ neguim” gosta de andar na moda, ter o tênis de marca, uns pano daora, de ter a janta garantida todos os dias . Nenhum “neguim’ quer ver o pai sofrendo porque não conseguiu pagar mais uma conta, não conseguiu botar comida na mesa, ou a mãe chorando vendo o filho querendo só uma bolacha.

E o chamado vem! Mbandi ainda grita!

“Socorro! Minha barriga ta doendo, moça, me dá um pão”, ouvia de uma criança no chão, que também devia pedir dinheiro no farol para se virar, ficava ali no chão pedindo comida ou alguma moeda. Eu olhei pra aquela criança, e me senti sua irmã distante, fiquei com um aperto na barriga , e senti a fome que ela estava sentindo. Já vi várias crianças assim, e vejo em cada uma delas um pouquinho de mim. “ O que você tem?” perguntei, e ela respondeu com um olhar triste , carente de atenção, de alegria, riso “fome”.

África mora na favela!

Chegou um homem, moço simpático, discreto, olhava feliz tudo que via pela frente, parecia até um europeu, abriu a porta da quebrada, já foi entrando, e logo sorriu. Ele não era dali, e afinal o que ele fazia ali? Logo fiz contato, “ Eai, beleza? ”, como quem não queria nada, já tentei me comunicar com aquele cara, para ver o que ele realmente queria, mas ele parecia tão legal, falando “ Olá, tudo bem? Cheguei agora por aqui, tô meio perdido, hehe”. Ele falava estranho, de um jeito esquisito, e se vestia muito bem. Descia o morro olhando para cima, admirando as casas coloridas que naquela rua havia, dando pequenos sorrisos disfarçadamente.

Viva e sorria! Mbandi ainda está viva!

A quebrada tem cor, grita alto, seu som também é bonito, chega ao infinito, ensurdece o que ouve, e traz a audição ao surdo, a visão ao cego, e cega aquele fecha os olhos, a mistura existe e o amor é vivo. Como eu, só quem tá sabe o que é, só quem vive sabe o que é a vida. É samba, reggae, rap, funk, é cor , sorriso , é o futebol na rua , joelho ralado, amizade, parceria, é a malandragem , capoeira, criação, trabalho, esperança… É  a quebrada! É nela que eu vivo, é nela que eu cresci, entre as rosas e a lama, me levantei.

“Stay Alive, I and I got to do the right” .  Ainda ouço o chamado…

 

Anna Jinga

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro. 

 

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