Confissões de Anna #10- Meu arco Íris é preto

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Sabe aqueles dias que aparecem sem pedir licença, entra com tudo, como uma furação dentro da cabeça, te bagunçando, deixando tudo desorganizado e quebrado? E aí você tem que se organizar, se reconstruir, limpar a mente. Esse dia chegou para mim, como quem não quem nada, chega de “ fininho” e provoca a revolução.

Dia nublado, enormes nuvens cinzas no céu, estava com cara de chuva, o vento parecia querer me dizer algo com seus assobios que vinham através das frestas da janela de ferro. Abri os olhos, tempo parou por um instante, esfrego os olhos, olho o relógio, calço o chinelo, escovo os dentes, me visto, e antes, comi aquele pãozinho para não ficar com fome, beijei o pai e fui. Desci a rua e paro no ponto, e a esperar do busão, que parecia vir como uma lesma de tanto que demorava, aproveito e observo as pessoas na rua.

Umas apressadas a caminho do trabalho, com a mochila nas costas, olhando sem parar para o relógio, com cara de quem acordou ás 4h para poder chegar a tempo no trabalho, com as mulheres de tênis, levando na sacola outro sapato e um gel para dar um trato no cabelo black, outras iam estudar, e seus pais acompanhavam até o ponto. Eu com meus 11 anos, ia sozinha para escola, e meu pai exigia que eu soubesse me virar, para encarar o mundo. Eu via crianças, de uns 6 anos de idade, indo na chuva, no meio do barro, com as sacolas amarradas nas pernas para não molhar o uniforme, e os pais que as deixavam em alguma escola, que por vezes era do outro lado da cidade, para poderem conseguir trabalhar, levavam seus filhos nos ônibus que não tinha nem espaço para andar. É, aqui é assim, camarão que nada a onda leva, não pode parar, todo mundo na quebrada acredita que no final do arco-íris tem o seu pote de ouro.

Peguei o ônibus, e com a mochila entre as pernas, eu fui. Chegou meu ponto, dei sinal e desci. Ainda tinha um pouco a ser caminhado até a escola, e eu, andando apressada como sempre, vejo na parede de um prédio de negócios um cartaz, era uma propaganda de uma universidade, aparentemente com as mensalidades bem caras, com a seguinte frase “ Para ser alguém na vida, você tem que estudar aqui!” , e na foto reparei que havia apenas pessoas brancas, com roupa de marca e um sorriso no rosto. Eu já havia visto uma universidade assim, onde os pais deixavam seus filhos, como os que acompanhavam seus filhos até o ponto, mas a diferença é que eles deixavam eles com seus belos carros, indo para seus empregos em escritórios como aqueles do prédio que vi o cartaz. Fiquei pensando naquelas pessoas do ônibus , quase todas negras , lutando dia após dia por uma pequena oportunidade para chegar até seu pote de ouro, com os rostos cansados , ganhando as vezes 2 salários mínimos por mês, pensando em uma vida melhor para seus filhos e para si mesmos. E se eles não tiverem oportunidade de estar em um lugar como aquela universidade, eles ainda seriam alguém na vida?  Vou ser só mais uma neguinha, sendo rebaixada por causa da minha cor, sendo impedida de chegar em algum lugar?

Andei pensando, minha cor, atrapalha tanto, que eu posso ser impedida de arrumar um emprego, ser excluída de grupos sociais , ter dificuldade de se comunicar com as pessoas normalmente, simplesmente por ser negra. Esse era meu destino?

Cheguei na escola pensativa. Rosa veio falar comigo e percebeu que eu não estava bem, e quando ela ia me perguntar o que tinha acontecido, ouvimos um comunicado da diretora falando sobre um tal homem que iria vir e falar para todos os alunos da escola, e eu só fiquei pensando, o que seria agora?

Descemos para o pátio da escola, que era enorme, ninguém queria ficar na frente , e em meio a confusão de todos os alunos,  me empurraram para frente , e acabei ficando de frente para o palco. E, entre os coordenadores, conversa daqui e de lá, chegou um homem, negro, o que me surpreendeu muito, pois ele era como um líder falando diante de todos , sem medo. Era como se eu visse na minha frente, alguém como eu, mas 1 em 10000 que chegou até lá. Ele começa a falar, e sua voz se sobressai sobre as outras, provocando um silencio instantâneo entre os alunos, atraindo a atenção de todos. Era um homem carismático, bem arrumado, com sapato social preto, engraxadíssimo e brilhando, quase de terno, e com um jeito de saber o que estava falando, com certeza.

Eu não fazia a mínima ideia do que ele iria falar, só sei que não consegui tirar os olhos dele. Ele então falou sobre o racismo, a desigualdade social, e o racismo deixar uma cicatriz enorme em uma criança, e na hora pensei nas crianças que eu via de manhã, no que elas iriam passar no decorrer da sua vida. Quantas vezes não tomei enquadro da polícia só por estar correndo na rua, mas ninguém falava sobre essa realidade, e ele parte para esse assunto, onde todo mundo tentava camuflar debaixo dos sorrisos, novelas e carnavais.

O que ele falava estava me hipnotizando, me incluindo no assunto , eu entendia tudo o que ele falava , “ Colocam isso no seu imaginário” , “ Negro não é incluso na sociedade, ele é separado de todos, quando ele vai ter uma oportunidade de morar em um prédio luxuoso?” “ Capoeira, candomblé, etc… coisas que não são encarados como cultura!”. Esse cara era um máximo, eu nunca tinha ouvido falar na escola sobre negros daquele modo, jogando as verdades na cara, eu estava fascinada. Eu realmente queria horar a raiz, mudar aquela realidade, realidade que eu vivia.

Para finalizar, ele disse “ Negro é ser humano também. Nós negros não podemos aceitar a realidade assim, lutar é preciso”. Aquilo me deu um gás, um orgulho, uma esperança! Negro é revolução, é movimento, é cor, é preto, é branco, é a raiz. No meu arco íris, tem a cor preta!

Anna Jinga

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro.

About Gabrielle

  • Giovanni Mendes de Lima

    Sério Anna,MUITO obrigado por acender minhas esperanças, de lutar pelo que mereço e de não desistir da minha caminhada com SUAS injeções de esperança chamadas: “Confissões de Anna”.