Confissões de Anna #02 – A vila

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Imagem:(www.google/Pinterest)

Infância é algo maravilhoso, todo lugar é visto com magia, e tem sempre uma aventura nova te esperando, algo para ser explorado. Lar é qualquer lugar, família é constituída por pessoas quem você ama. Amor é fundamental.

Minha casa era humilde, não tinha muita coisa, as paredes eram rebocadas, o único lugar que tinha azulejo era no banheiro, o chão tinha partes sem piso. Na cozinha tinha um armário, e no canto dele tinha riscos, que era onde eu e meu pai mediamos minha altura. Meu quarto era repleto de ursinhos de pelúcia, na parede tinha minhas medalhas penduradas que ganhei nos batizados de capoeira, minha cama era do lado da parede, e eu adorava ficar lá porque tinha um cheiro tão bom. Quando eu estava na minha casa eu tinha uma sensação de acolhimento, de proteção. Quando eu era criança, minha casa era o melhor lugar do mundo.

La na vila eu conhecia geral. Descendo a rua tinha a mercearia do seu Milton, ele tinha um bigode grande e curvado nas pontas, e sempre gritava para meu pai se referindo a mim “ Que moça bela essa ,hein!”, meu pai dava risada. Lá perto tinha a Dona Rute, era a moça que lavava as roupas para conseguir se sustentar, ela era brava , mas só com os meninos que insistiam em sujar seus lençóis pendurados do varal, mas sempre dava um sorriso para mim. Havia um menino que engraxava os sapatos dos senhores que por ali passavam, seu nome eu não sei mas todo mundo o chamava de Duca. Ah, e claro , não podia deixar de falar da Dona que ficava com seus livros numa esquina da rua , ela era tão boa comigo, e parecia que sabia de todas as coisas , chegava ser até assustador. Todo mundo se conhecia e era assim que a gente levava a vida.

Só éramos nós, eu e meu pai. Minha mãe eu não sei onde está, nunca vi. Cresci sem irmãos, pelo menos de sangue, porque irmãos da vida tenho de sobra, pois onde meu pai dava aulas (ele era mestre de capoeira) tinha muitos alunos, e lá era minha segunda casa, não só a minha como de muitas crianças que iam lá. Lá era um lugar que me despertava o bem, e desejo de ajudar o próximo. Era lá que eu me sentia bem, foi lá que eu cresci, foi lá que eu criei minha família. Aquele lugar tinha uma ligação forte comigo, eu me sentia tão viva quando estava lá que chegava até a arrepiar, meu coração batia com mais potência, meus olhos brilhavam, e o sorriso saia sem eu perceber.
Meu pai me criou sozinho, mas claro que tinha ajuda de algumas vizinhas que me olhavam quando meu pai tinha que sair. Dona Bete, acho que tinha uns 45 anos, ela morava em frente a minha casa, ficava de olho em mim, e sempre trazia um pedaço de bolo, era sempre o mesmo sabor, Milho. A Dona Zoa, essa tinha uns 65 , também cuidava de mim, ela tinha uma verruga tão grande perto do nariz, que só faltava falar, e ela tinha um jeito de falar que me deixava tão assustada, parecia que ia me bater.

Um dia meu pai precisava ir ao centro de são Paulo comprar alguns materiais para as aulas, e me deixou com a Carlita, era uma moça alta e jovem, corpo de modelo ,pele bem clarinha, ela ajudava a cuidar das crianças do bairro. Meu pai não confiava muito nela mas as moças que cuidavam de mim estavam ocupadas.

Carlita foi a pessoa que deixou tudo diferente , e me fez entender um pouco mais das coisas. Ela veio cuidar de mim, eu olhava para ela e o que ela fazia era só pentear o cabelo e olhar no espelho. Eu cansei daquilo e resolvi falar algo para quebrar o gelo , porque até o momento só havia silencio .Estávamos sentadas no sofá da sala, eu de um lado sentada com “pernas de índio “e ela do outro com as pernas cruzadas, até que falei “ Ei, você sabia que eu tenho várias medalhas no meu quarto? Quer que eu vá buscar para você ver? Elas são muito legais, tem até de ouro e…” , mas ela nem olhou pra mim, então resolvi falar de outra coisa, “ Hoje de manhã eu fiz um chocolate quente, ficou tão bom…quer um?” , e novamente fiquei sem respostas, tentei outra coisa, “ Eai você quer brincar de alguma coisa? Eu tenho uma corda, a gente pode brincar com ela, o que acha? ”, mas as respostas não vinham.

Resolvi abri o jogo e falei “ O que você tanto olha nesse espelho? Porque não presta atenção em mim? ”, foi aí que ela abriu a boca, se levantou e disse as palavras que me faz refletir até hoje, e na hora me fez olhar por dentro de mim e me achar um lixo, me diminuindo o máximo. Ela disse “ Me deixa em paz, sai daqui com seu cabelo duro! Eu só quero pentear meu cabelo, e como você está vendo ele é LISO, e isso sim é bonito. Então sua preta, sai daqui!!!”

Anna Jinga

Confissões de Anna é um experimento de construção de personagem realizado pela atriz Gabrielle Souza, do Grupo Brinquedo Torto para a próxima montagem do grupo, que estreia em Setembro. 

About Gabrielle

  • Chocado… Afinal ela veio cuidar da Anna ou do cabelo? ¬¬

  • Amanda Ribeiro Vieira

    caraca gabi foi tao profundo ja pensou em escrever um livro

  • Anna Melissa Bueno

    Gabi muito bom!
    Nossa o final tocou em mim muito profundo.