“As pessoas sempre irão duvidar da necessidade da existência de atores. Os atores devem sempre fazê-las lembrar.”

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Nós, e nosso trabalho, somos essenciais para a manutenção da humanidade. Mas ao tentar explicar isso, usando apenas palavras, para outra pessoa, é muito fácil acabarmos sendo menosprezados, tidos como ingênuos, ou pior, ignorantes. Vamos imaginar um diálogo simples, e você começa apresentando um argumento: “O Teatro é importante, porque ele humaniza.” – por exemplo..

É muito fácil ouvirmos em reposta: “Quem é você para falar isso? Olha sua roupa, olha o seu cabelo, olha a sua idade, olha com quem você anda…” – essa resposta é uma falácia. Falácia é quando as pessoas parecem que contra argumentam conosco, mas na verdade, elas não estão falando nada, estão apenas fugindo do assunto, normalmente, por ignorância. Esse tipo de falácia se chama Ad Hominem. É quando a pessoa ao invés de atacar o argumento, ataca quem fala.

Existe também uma falácia que é o extremo oposto, quando ao invés da pessoa atacar quem fala, ela enaltece a si mesma para referendar o assunto, dizendo: “Eu sou mais velho”, ou “mais bonito”, ou “estudei mais, li mais livros, fiz mais faculdades, trabalho em multinacionais, tenho um carro maior que o seu, então sei do que estou falando…”, ou usam como exemplos pessoas que, na cabeça de alguém, servem como pilares da verdade: “Nem o Steven Spielberg, Nem Steve Jobs, diriam isso!”. Essa é a falácia da Autoridade. É quando se usa o nome, ou status, ou conquistas de alguém, para justificar um ponto de vista, sem argumentar nada.

Claro que nós também podemos incorrer numa falácia, se usarmos somente a nossa emoção para tentar defender nosso ponto de vista, quando mal segurando nossas lágrimas, dizemos: “Ele é importante para mim, (chora, ou assoa o nariz), como você pode dizer o contrário disso? Não vê que isso me magoa? (chora mais.)”. Essa é a falácia da Emoção. Ou então usar da falácia da Inversão do Ônus da Prova, que é quando a gente joga a responsabilidade para o outro: “É claro que o teatro é importante, me prova que eu estou errado!”

Antes de a gente continuar, é preciso que fique claro que uma falácia só ocorre em uma discussão, em uma conversa onde se apresentam argumentos. Quando as pessoas apenas estão se xingando, não se trata de uma conversa, se trata de uma briga. Não é um debate, mas um embate. Uma falácia é uma argumentação que não se sustenta por que… não tem onde se sustentar, é apenas uma tentativa de se parecer melhor do que o outro. E nós temos que ser melhores do que isto.

Mas porque estou dizendo isso? Por alguns motivos.

Mas para não me estender muito, vou me ater a um só.

Entenda que é extremamente difícil explicar para alguém a importância de algo, se esta pessoa não teve acesso, ou se teve uma experiência ruim com aquilo.

Usar o teatro para explicar algo é fácil. Mas como explicar o Teatro?

Como explicar para as pessoas que passam as melhores horas da sua vida, sentadas, assistindo propagandas, que assistir teatro pode ser mais interessante? Como explicar para as pessoas que passam as melhores horas da sua vida, sentadas, teclando, que assistir teatro pode ser mais divertido? Como explicar para as pessoas, que ver outras pessoas, que entrar em contato, presenciar uma verdade, ouvir uma história, uma confissão, manifestar a empatia, sentir a emoção do outro e a sua própria atuarem juntas… como explicar que isso é importante?

Talvez não seja possível apenas com palavras. Talvez o Teatro não possa ser discutido, apenas presenciado. Talvez aquele diálogo simples que apresentei no começo desse texto deveria ser assim: “O Teatro é importante. Deixa eu te mostrar o porquê.”

Quando as pessoas duvidarem da sua necessidade de fazer teatro, não discuta; demonstre.

Quando as pessoas negarem da importância do teatro na sociedade, não fale; mostre.

Quando você sentir vontade de demonstrar sua humanidade: seus amores, suas dores, seus medos, suas certezas, suas revoltas, suas paixões… não pense duas vezes; apresente!

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com