As criadas, de Jean Genet, o novo projeto do contra-regra

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O contra-regra está a preparar um novo espetáculo que irá estrear em abril, e com o qual se está a candidatar ao XXXVI Encontro de Teatro na Escola, que irá decorrer no Funchal, Ilha da Madeira, entre 21 e 25 de abril. Hoje vimos partilhar com o Projeto Potência a fundamentação da nossa escolha.

Jean Genet afirmava que o Teatro deveria ser um acontecimento incendiário. Imbuídos deste espírito, e certos de que neste mundo em conflito constante o Teatro é uma arma – a que temos à mão para tocar as consciências dos que nos rodeiam–, escolhemos este texto sobre um tema ainda e sempre atual: a luta de classes. Numa sociedade em que a classe média está em vias de extinção, o fosso entre ricos e pobres acentua-se, e as tensões daí decorrentes são cada vez mais complexas: os pobres e oprimidos têm sentimentos de ressentimento para com os ricos e opressores, mas ao mesmo tempo invejam a sua posição e anseiam ascender a ela. Neste texto, as duas criadas vêem na patroa uma figura opressora e autoritária, provocadora de uma série de humilhações. Na impossibilidade de mudar a sua circunstância, projetam em si mesmas o objeto do seu ódio – e porque não, do seu desejo – para poderem exprimir tudo o que não podem fazer e dizer abertamente. Usam para isso uma espécie de role play ritualizado que culmina com o objetivo, nunca concretizado, de matar a Senhora.

Tendo em conta que este espetáculo é destinado a um público escolar, a densidade do texto necessitava, na nossa opinião, de uma contextualização que facilitasse a sua compreensão. Assim sendo, pedimos ao escritor Pedro Guilherme-Moreira que escrevesse um prólogo ao texto do Genet. Nesse prólogo vemos os trabalhadores do teatro a montar a cena e a preparar as atrizes, ao mesmo tempo que discutem o texto e a sua pertinência na nossa sociedade. Quando terminam o seu trabalho, inicia-se o texto do Genet.

A encenação procura criar no público a sensação de desconforto, de que “algo não bate certo”, de que a realidade não é bem o que parece à primeira vista. Para isso os objetos cenográficos foram criados com alguma distorção, bem como o desenho de som e de luz.

Esperamos com este espetáculo deixar alguma semente de reflexão num público que cada vez mais é bombardeado com estímulos cuja intenção é deixar-nos a todos submissos e indiferentes. Que o comfortably numb se transforme numa consciência coletiva. Refuse. Resist!

About Maria Joana Melo
Professora de Educação Física, Dança e Teatro na Escola Secundária Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia, Portugal. Responsável e encenadora no clube de teatro escolar contra-regra.

  • VarleiXavier

    Maria Joana, é um prazer tê-la conosco!
    Adorei a proposta de montar “As criadas” com os alunos. É um texto que propõe muitas reflexões.
    Estamos muito curiosos por aqui e queremos muito saber como transcorrerão os ensaios e as apresentações. Continue contando tudo para a gente! Ficamos muito satisfeitos em conhecer a produção estudantil aí em Portugal.

    Abraço forte!

    • Maria Joana Melo

      Obrigada! Estamos contentes de estar aqui! 🙂

  • Miguel Tescaro Fagundes

    Incrível!!!
    É muito bom ver a importância dada a um assunto que por vezes é deixado de lado quando comparado a tantas outras coisas que não estão certas nesse mundo. Continue escrevendo aqui no blog, estou curioso para conhecer melhor o grupo e o espetáculo!!!!

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