“Acalme seu Ego. O Teatro não precisa de você. Você precisa do Teatro.”

Posted on Posted in Reflexões, Ronaldo Ventura

O ator, possivelmente, é o ser humano mais atento do mundo. Não estou querendo menosprezar o trabalho de um astronauta, ou a capacidade de um cirurgião, não é isso. Quero dizer, com outras palavras, que quando um astronauta volta para a casa, ele descansa; que quando um cirurgião acaba uma operação, quem se preocupa em verificar os aparelhos que mantém o paciente vivo, quem trata dos assuntos burocráticos, quem trabalha como ponte entre o paciente e seus familiares, é outra pessoa.

Por mais que existam uma variedade de cargos, uma série de funções específicas durante todo o processo do fazer teatral (a experiência e experimentação do Teatro como um todo) e do acontecimento teatral (o espetáculo em si, e seus desdobramentos), o ator sempre acaba se envolvendo, ou sendo envolvido, em uma situação ou outra.

E, não apenas por isso, precisamos estar atentos. Constantemente.

Desde que o primeiro homem das cavernas começou a fazer teatro, ele percebeu que o que importava era se o outro tinha entendido a mensagem. E para que essa comunicação acontecesse de forma eficiente, ele teria melhorar em algo. E assim, durante anos, gerações, e evoluções, ele foi desenvolvendo e assimilando suas próprias técnicas rudimentares de comunicação. E diferente de seus contemporâneos que se tornaram homo sapiens (o homem que sabe, aquele que tem possui a capacidade de aprender, o que tem ciência) ele, nosso ancestral ator, foi o primeiro homo sapiens sapiens (o homem que sabe que sabe, aquele que aprende e sabe que aprendeu, o que tem ciência e consciência). O nosso ancestral ator não apenas sabia o que deveria fazer para ser entendido, e o repetia sempre que necessário, como também percebia o que não funcionava, e descartava ou aprimorava aquela ideia.

Atento ao que fazia, e atento ao que o outro percebia.

Dizem que temos 05 sentidos, e que as mulheres tem 6. Então os atores têm 7. Logo as atrizes tem 8,9,10… Brincadeiras à parte, o que é exatamente um sentido? Sentidos são as capacidades que temos de nos relacionar o mundo externo: visão, tato, etc.

Uma capacidade não é o ato em si, mas uma possibilidade. Explico: “visão” não é “olhar”; “visão” é o nome dessa capacidade, “olhar” é a ação, o ato de exercer essa capacidade. Simples, não é? Mas, o que “olhamos”? Como “olhamos”? O que “nos faz olhar”? A luz. Sem luz, não podemos enxergar. A luz bate em determinado objeto, e sua reflexão: a forma como esse objeto reflete a luz, é que nos permite vê-lo. Ou melhor, nós vemos a manifestação da luz reagindo naquilo que ela toca. Então não vemos o objeto, temos a impressão de vê-lo. Confuso, não é? Vou tentar explicar de outra maneira:

Olhe para qualquer coisa colorida próxima a você. Qual a cor desse objeto? Tem certeza? Nós só percebemos essa cor que damos ao objeto, porque a luz solar é branca, caso o Sol fosse azul, ou emitisse uma luz azul, provavelmente não existiria a cor vermelha, por exemplo. Isso pode nos levar a outra pergunta: Se a cor que eu vejo (no caso, vermelha) não está no objeto, mas sim na impressão que eu tenho; quem garante que o vermelho que eu vejo, é o mesmo que o seu? Essa é uma dúvida tão antiga que até foi banalizada… Só que ultimamente os cientistas vêm acreditando que sim: cada pessoa vê uma cor diferente de outra pessoa! O mundo que você vê, só você vê. As impressões que você tem do mundo, que formam sua realidade, estão dentro de você; e aquilo que chamamos de real, é o que você acredita ser real. Isso só nos leva para um conceito indiano mais antigo ainda: “cada ser humano é um universo”.

E ator, como está atento a tudo, está atento ao seu próprio universo, e ao universo do outro. E como temos a capacidade de modificar a vida das outras pessoas, não mudamos apenas o mundo, mudamos realidades inteiras. Manipulamos universos. E apesar disso ser verdade, não lhe parece um pouco megalomaníaco? Um pouco egocêntrico demais, no maior sentido da palavra?

E também a isso devemos ficar atentos: a essa possibilidade de termos a impressão de que o mundo precisa de nós. O mundo não precisa de nós. Precisa do nosso trabalho. Precisa de atores, mas não de algum ator específico. Quem precisa de você, é seu universo. O qual você é dono e senhor, principal causa e efeito. Você é a pessoa mais importante do seu mundo. O que é muita coisa. Mas é só do seu.

O Teatro é maior do que eu, do que você, do que nossos planos mirabolantes, que nossos projetos essenciais, que nossos espetáculos formidáveis. O Teatro é maior do que o mundo. Pois o mundo é apenas um acumulo de universos que se interagem. O Teatro é o fator transformador desses, e de todos os universos. Pense em você: o quanto seu universo não foi modificado pelo Teatro? E quantos outros universos, você não viu, ou não ajudou, a serem modificados por ele?

Não é a toa que nossa função no mundo está ao lado das religiões e das ciências. Não é por acaso que dizemos que teatro não é questão de “talento”, mas questão de “vocação”. “Talento” você treina, “aptidões” você melhora, mas “vocação” é essa tendência mais forte que suas vontades de fazer algo. É a necessidade. “Vocação” é o que te faz se sentir vazio e triste quando não está onde gostaria, nem fazendo o que gostaria. E a vocação de fazer teatro te altera. Altera seus estados físicos, emocionais, e psicológicos.

Porque fazer Teatro é um estado de vida.

Fique atento. Tenha ciência e consciência. Por estarmos inseridos em uma das manifestações mais importantes da humanidade, por sermos agentes ativos e transformadores de universos, tendemos a nos elevar da sociedade, e quando fazemos isto, ficamos fora dela, e assim, nosso trabalho perde o sentido.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com