A Formação do Intérprete Contemporâneo

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A busca por uma formação transdisciplinar, que permitisse ao artista da cena interpretar as obras de sua época, ou apresentar as inovações estéticas próprias de seu tempo, começou muito antes do que conceituamos hoje como “arte contemporânea”: Começou com as aulas a partir das teorias de Dalcroze sobre o ensino físico do ritmo, no Vieux Colombieur de Jacques Copeau, no início do Século XX; começou com as aulas de boxe para os novatos do Teatro de Arte de Moscou de Stanislavski, no fim do Século XIX. Ou talvez até tenha começado quando o Duque de Saxe-Meininguen começou a obrigar seu elenco de atores, em 1866, a aprender danças de corte, sem objetivar o uso da dança em uma cena em si, mas sim, para que eles soubessem “se deslocar em cena de maneira ordeira e orgânica” – tradução e grifo meus.

Ao longo do Século XX, muitos diretores e coreógrafos (além de dramaturgos, cenógrafos, compositores, figurinistas, e outros profissionais envolvidos na realização de espetáculos) percebendo-se incapazes de traduzir o afã de sua realidade, foram buscar em outras culturas elementos técnicos e artísticos para comporem suas obras. E assim vimos elementos egípcios em coreografias de Martha Graham e de Merce Cunningham; estética e adereços japoneses em Peter Brook e aAriane Mnouchkine; a China inspirando Bertold Brecht; e a Índia formando Grotowski e Eugenio Barba. E esses são apenas alguns dos nomes de pessoas que tiveram que formar seu elenco e corpo de baile, para que estes fossem capazes de executar esses novos movimentos “transculturais”. As suas equipes de trabalho, seus espetáculos e seu público, geraram e formaram gerações de artistas que ainda buscam, inconformados, elementos outros, para compor suas próprias obras.

Acredito que está claro dizer que desde que se buscou por um interprete que fosse capaz de expressar o zeitgeist – o “espírito da época” – buscou-se para a formação deste intérprete, elementos que o teatro ou a dança de sua época não poderiam conter. E houve artistas que se tornaram professores, pois acreditavam que para ser possível manifestar a arte que necessitavam criar, o material humano: o Intérprete Ideal, ainda não existia, e não existiria até eles mesmos o formassem. Isso aconteceu com Loie Fuller, com Isadora Duncan, com Alfredo Mesquita. Todos estes buscaram transmitir o que haviam conquistado através de seus anseios estéticos/artísticos. Criaram escolas, grupos, ambientes para formar esse intérprete capaz de ser o exemplo de sua era. E em todas esses exemplos, elementos do teatro, dança, mímica, esporte, etiqueta, eram ensinados. E em todos esses exemplos, criaram intérpretes perfeitamente capazes para representar um mundo que já não existia mais.

A formação do intérprete contemporâneo possui uma vantagem que nossos antepassados não tiveram, ou não vislumbravam: Estamos formando artistas para uma arte que virá. Estamos criando espetáculos, exercícios cênicos, processos criativos que gerará possíveis propostas estéticas e artísticas que irão além do que hoje supomos ser arte. Este é o mundo contemporâneo. E o formador de tais artistas, que também formarão artistas e assim sucessivamente, deve ter, além de sua bagagem de transitar em diversas linguagens artísticas, o kwow-how de aprender ensinando e ensinar aprendendo. Porque o intérprete contemporâneo nunca estará formado.

About Ronaldo Ventura
Ronaldo Ventura é um milionário excêntrico que as noites veste uma fantasia de homem morcego e combate o crime. De dia, ele dirige espetáculos e escreve peças. conheça seu trabalho em www.ronaldoventura.com